Moralitys Asylum - Moralitys Asylum (2016): Qual é a sua?


Auguste Comte, praticamente o pai da sociologia e do positivismo, instituiu a ciência da moral. O francês dizia que a moral consiste em fazer prevalecer os instintos simpáticos sobre os impulsos egoístas.

CUTUCANDO FERIDAS

Esse ponto de vista da moral sempre foi muito bem aceito, inclusive com outros grandes pensadores complementando esse conceito.
Kant, por exemplo, defendia uma moral universal e impessoal. Isso faz sentido dentro da ideia de Comte, visto que os instintos teriam esse caráter imutável.

Então surgiu certo pensador alemão e bigodudo (sempre ele), que questionou todo esse conceito organizado e claro de moral.
“A moral é tão imoral como tudo o mais na terra. A própria moral é uma forma de imoralidade.” Com essa frase, escrita em A Vontade de Poder, Friedrich Nietzsche estabelece uma nova visão para o conceito de moral. Muito mais individualizada, e longe de ser algo positivo.

Pelo contrário, as leis da moral são prejudiciais ao homem, pois o impedem de encontrar seu verdadeiro eu.

Toda essa conversa filosófica é para lembrá-lo que, esse é um tema muito polêmico e longe de ser consensual. E o Morality’s Asylum é sobre isso.

Sem medo de cutucar feridas, o álbum é praticamente um tratado sobre a moral.
A moral é universal ou individual?

QUEM SÃO ELES?

Antes de qualquer comentário adicional, irei fazer uma breve introdução sobre a banda. O Morality’s Asylum foi formado em 2015, e em 2016 lançou seu primeiro álbum, homônimo.

Com produção independente e liderados pelo baixista e compositor Heitor del Ciel, a proposta é um álbum de metal progressivo conceitual.

O quarteto brazuka é complementado pelo vocal monstruoso de Riq Therrys (aqui você pode ver um belo resumo sobre a carreira do cara), Ricardo Domingues na guitarra (produtor do Rosa de Saron) e Daniel Moretti na bateria.

Ou seja, apesar do Morality’s Asylum estar no seu primeiro trabalho, o histórico dos músicos nos prova que não é um trabalho aventureiro, composto por marinheiros de primeira viagem. Pelo contrário, o conjunto já é bem maduro, e isso se reflete na qualidade do álbum.
“Mimimi, o metal nacional morreu. É só Angra e Sepultura, mimimi... Se seu amigo é desses, minha sugestão é enviar o novo disco do Morality’s Asylum goela abaixo dele. Ou se preferir, enfie por outro lugar.”
A banda.

O CONCEITO

Como comentado no começo desse texto, Morality’s Asylum é sobre a moral (ou a falta dela), seja lá o que isso possa significar.

O álbum é dividido em três atos. O primeiro, aberto pela faixa Hello There... Crazy People!, é aberto com Laws Don’t Matter.
Um personagem nos introduz o ambiente em que se passará o restante do álbum, um hospício da moralidade. O interessante é o questionamento que acontece no final: “Dentro ou fora?/ Aonde realmente é esse hospício?”.

Em Disregarded Morality temos o ponto alto. A construção instrumental é muito bem elaborada e a letra levanta questões sobre o que pode ser a moralidade.
O ponto de vista abordado se aproxima muito dos conceitos de Nietzsche, aonde a moral é individual, e não uma lei universal: “Devemos nos livrar/ Das fronteiras do pecado/ Nós ousamos acreditar/ Fazer nossa própria moralidade”.

2º E 3º ATO

O segundo ato é iniciado com Hi There... Crazy People!. É uma faixa bem humorada, boa para quebrar a tensão e ritmo do primeiro ato.
Ao fundo, a banda toca quase que uma marcha, enquanto personagens dialogam usando referências como Singing in the Rain e Heat of the Moment, e ironizam o próprio álbum (“Onde está Jesus? Está na canção mais longa do álbum”).

E é nessa pegada de marcha, no som mecânico do tique-e-taque, que o gatilho é puxado para The Clockwork Paradigm.
Em tom crítico, temos outro grande destaque do álbum. “Nós vendemos liberdade por segurança/ Vendemos isso de novo e de novo”...
Quem nunca abriu mão da liberdade por uma suposta segurança? Quantos não acordam cedo, contra os próprios impulsos fisiológicos, e passam o dia inteiro trabalhando em algo que não dá o mínimo de prazer? Tudo isso pela suposta segurança de receber um salário no final do mês.

Seria isso moral? Vivermos sob o tique-e-taque do relógio? Trocando tempo por carros, roupas e perfumes?
As coisas que você possui acabam possuindo você.

A segunda música desse ato é a minha favorita, Honor Among Thieves. “Então eu vi, um sistema que nunca me serviu/ A ética era sem propósito”, e justamente com essa filosofia meio Rousseana de que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, o Morality’s Asylum canta sobre o fim da honra.

Hey There... Crazy People! Abre o terceiro e último ato, nos apresentando a trilogia final: The Pledge, The Turn, e The Prestige.
Tirando a última faixa, as outras duas não me empolgaram tanto e acredito que não estão no mesmo nível do restante do álbum.

The Pledge e The Prestige são contrapontos entre as amarras da moral (o juramento) e sua libertação (o prestígio). Como diz na letra de ambas, “O homem do juramento/ E o homem do prestígio/ Nunca são a mesma pessoa”.
Senti falta de uma representação instrumental mais forte, que pudesse acentuar esses diferentes momentos.

O PRÓXIMO PASSO

Instrumentalmente o disco é bom, apesar de faltarem alguns momentos mais marcantes.
Em compensação, o vocal de Riq e as letras escritas por Heitor del Ciel são o grande ponto forte. Um conceito muito bem escolhido e trabalhado.

Morality’s Asylum é um trabalho impressionante e uma estreia promissora. Uma surpresa na cena nacional.
Agora ficamos no aguardo de um próximo passo do conjunto. Seja com shows, novos projetos, um novo álbum... A única certeza é que esse trabalho não pode e não deve parar por aqui.
É um prato cheio para os fãs de metal progressivo.

Por fim, fica a reflexão. O que é a moral? E qual é a sua?

Your life is what you take. Destroy society as you destroy yourself.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Morality’s Asylum
Ano: 2016
Álbum: Morality’s Asylum
Gênero: Metal Progressivo
País: Brasil
Integrantes: Daniel Moretti (bateria), Heitor del Ciel (teclado e baixo), Ricardo Domingues (guitarra), Riq Therrys (vocal).

MÚSICAS:
1 - Hello There... Crazy People!
2 - Laws Don't Matter
3 - Disregarded Morality
4 - City of Mirrors (Broken Glass 2)
5 - Hi There... Crazy People!
6 - The Clockwork Paradigm
7 - Honor Among Thieves
8 - Hey There... Crazy People!
9 - The Pledge
10 - The Turn
11 - The Prestige



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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