Beardfish - Mammoth (2011): Quem sabe faz ao vivo.


Coloque no play e feche os olhos. Agora tente adivinhar de que ano é esse álbum (ignore o fato de você ter lido o ano no título da postagem). Você vai se pegar, provavelmente, lá pros idos de 70, ouvindo alguma coisa entre King Crimson e Van der Graaf Generator.

ALÉM DA EMULAÇÃO

A proposta do Beardfish é bem clara, mandar um prog clássico em pleno século vinte e um. Isso é arriscado. Muitas bandas se perdem nesse caminho e não passam de uma emulação do passado.
Não é o caso aqui.

Os suecos conseguem mandar muito bem no retro-prog, mantendo os elementos clássicos, sem abrir mão do acréscimo de melodias e experimentações que dão identidade ao grupo.
“Existem dois tipos de retro-progs. Um faz seu som baseado nos anos 70 e nada mais, isso é fácil e preguiçoso. O outro faz seu som baseado nos anos 70 e inclui a própria identidade no trabalho, esse é o desafio.”
Mammoth é o sexto álbum de estúdio do Beardfish e é dividido em sete faixas. Entretanto, em alguns casos uma faixa é a continuação da anterior. Achei isso bom. Ao invés de ficar com músicas de vinte minutos, a banda preferiu dividi-las e deixar a audição mais acessível, sem prejudicar o conteúdo.

INSTRUMENTAL E A GRAVAÇÃO

O ponto mais forte de Mammoth é sem dúvida alguma o instrumental. Os caras foram capazes de transitar por diversas melodias dentro de uma mesma música, sem soar forçado ou exagerado.
As mudanças vão acontecendo de forma natural, e vão te deixando curioso para saber o que acontecerá no próximo compasso.

A grande surpresa é a adição de um saxofone e sutis toques de jazz. O sax interage de forma moderada, porém é fundamental dentro da estrutura. Ele não está lá para fazer um solo e sair, mas sim para aparecer como parte do todo.
Vai ter saxofone, sim!

A habilidade instrumental dos integrantes fica clara durante o processo de gravação. No Youtube é possível encontrar o making-of de Mammoth.
Os suecos mandam tudo praticamente ao vivo. Não é aquele processo convencional em que cada um pega sua partitura, vai gravando sua parte, e depois juntam tudo.

A banda se reúne apenas com um esboço das ideias (e as letras, claro). Então, começam a tocar para ver o que vai sair. Obviamente as coisas não saem boas de primeira, por isso são horas e horas gravando, além de infinitos takes.
O resultado final é um altíssimo grau de improvisação (com qualidade), e como mencionado pelo vocalista no making-of, “é por isso que somos uma banda tão boa ao vivo, o nosso álbum já nasce assim”.

Procure um vídeo do Beardfish tocando ao vivo e veja se Rikard Sjöblom está sendo soberbo ou se ele tem razão.

COMO UMA PEDRA

A abertura é pesada, com bastante distorção e a bateria marcando o ritmo com bastante força. The Platform corre assim até a entrada do vocal: “Abra seu coração e me deixe escalá-lo/ Eu sinto que você pode me amar, se você tentar”, a letra fala de amor e fala de ódio.
Com o passar do tempo, esse sentimento vai mudando.

A mudança é concluída na segunda faixa, And The Stone Said “If I Could Speak”, que nada mais é do que uma continuação de The Platform.
A introdução é longa, com mais de 4 minutos de pura cozinha instrumental, o tom fica melancólico. Em And The Stone Said “If I Could Speak” o sentimento de amor e ódio vai evoluindo (ou regredindo?), até o ponto em que simplesmente não há mais sentimento algum.
Só resta o frio. E o vocalista se descreve como uma pedra, insignificante e sem sentir absolutamente nada: “Eu não ligo para amor ou ódio/ E não existe o que chamam de fé/ Nenhuma força maior punirá seus erros”.

Assim se encerra a primeira sequência de Mammoth. O bom nível é mantido na terceira música, Tightrope: Bem mais alegre e delicada.
É a calmaria que precede a tormenta.

A TORMENTA

Green Waves e Outside/Inside iniciam a segunda sequência de músicas. Aqui o Beardfish começa com um instrumental bem mais pesado, praticamente um metal. É engraçado ver no making-of como eles mesmos se surpreendem com o peso do resultado final.
Jamais confie em um mar calmo demais.

“Mãe, por que você não me deu asas?”. Essa é uma das indagações que Rikard canta, enquanto narra um naufrágio.
A entrada descreve a luta do marinheiro contra o mar, que outrora fora sua amiga (no feminino mesmo, não errei): “O vento está tão forte/ E com ele vem chuva/ Batendo profundamente na minha alma/ O mar, ela já foi minha amiga”.

Após tentativas, questionamentos, reflexões, o marinheiro simplesmente aceita seu destino e se conforma com a situação de que esse é o derradeiro fim dele.

PROG NÃO É TÉDIO

Quando você acha que todas as fichas já foram gastas, passamos pelo jazz de Akakabotu e pela alegre Without Saying Anything (feat. Ventriloquist).

O Beardfish prova sua capacidade de transitar por diversas influências e momentos dentro de um curto espaço de tempo, ao entregar sete músicas com características totalmente diferentes.

Essa habilidade dos suecos resulta em um álbum extremamente dinâmico, apesar da longa duração das músicas jogar contra essa perspectiva.
Você acha o prog um tédio? Talvez você só não tenha conhecido o Beardfish.

I am every stone on earth, everything is recorded in me. But I'm not to interfere, just continue to act as if I'm not here.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Beardfish
Ano: 2011
Álbum: Mammoth
Gênero: Rock Progressivo
País: Suécia
Integrantes: David Zackrisson (guitarra), Magnus Östgren (bateria), Rikard Sjöblom (vocal e teclado), Robert Hansen (baixo).

MÚSICAS:
1 - The Platform
2 - And the Stone Said: "If I Could Speak"
3 - Tightrope
4 - Green Waves
5 - Outside/Inside
6 - Akakabotu
7 - Without Saying Anything (feat. Ventriloquist)



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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