Loudness War: Por que a música atual soa pior?


Quem nunca ouviu (ou disse) a seguinte frase: “Antigamente é que se fazia música boa!”, ou então “música antiga é bem melhor”...
Se você é mais do que apenas um ouvinte casual, as afirmações acima lhe parecem familiar, certo?

E por que temos essa sensação? Só uma questão de nostalgia? Ou a música antiga é melhor mesmo? Tínhamos melhores músicos? Mais inspiração?

A MÚSICA NÃO CONTINUA A MESMA

Vou dizer o óbvio agora:
A música mudou. Como produto e como forma de consumo. Quinze anos atrás baixar um disco, quase que instantaneamente após seu lançamento, era impensável. Consumir música era caro, logo ela não era tão descartável. As rádios exerciam uma enorme influência... Enfim, não vou ficar falando o que todos já sabem.

Agora eu vou dizer o não tão óbvio:
A mesma música, que poderia ser ouvida 40 anos atrás, já não é igual. Hoje ela está diferente.
Não entendeu nada e está me chamando de louco? Calma, calma. Explico tudo. Se bem que quanto à questão da loucura, provavelmente você tem razão.

AUMENTA O SOM

Se você pegar um LP da década de 70, e depois pegar um relançamento desse LP em uma mídia de CD (os famosos remasterizados), deverá ouvir a mesma coisa, certo?
É, deveria ser isso, mas está errado...

Como? Por que?
Vamos chegar lá, mas primeiro vamos às causas.
Você controla o volume, ou ele te controla?

Já reparou que o volume de um comercial televisivo é sempre maior do que o volume do programa que você está assistindo? A razão para isso acontecer é bem simples.
“Aumentar o volume é uma ótima maneira de chamar nossa atenção!!! Assim como, ao destacar essa frase no meio do texto, estou atraindo seu foco... Com o volume mais alto é a mesma lógica.”
O nosso ouvido se liga mais nas coisas quando o volume é maior. Para comerciais televisivos, isso funciona muito bem. O mercado fonográfico, percebendo isso, adotou essa tática. E o pior: Funciona também.

As músicas passaram a ser produzidas com um volume maior, para que o ouvinte do rádio (ou de qualquer outro meio) preste mais atenção a ela, fazendo com que a música fique mais comercial.
A princípio, nenhum problema. Ganhar dinheiro é bom e todo mundo gosta.

Assim nasceu a famosa e nada silenciosa Loudness War, ou se preferirem o nome brazuca, a Guerra dos Volumes.

A GUERRA DOS VOLUMES

Se você ouvir duas vezes a mesma música, uma alta (o termo adequado seria comprimida) e outra no volume normal, você provavelmente gostará mais da comprimida. Logo, à curto-prazo, a compressão das músicas é genial!

O problema é que quando ouvimos uma sequência de músicas comprimidas, o nosso cérebro começa a se entediar. Ele aprecia variações no volume, altos e baixos, coisas que uma música comprimida não é capaz de oferecer. Chega uma hora que a música comprimida passa a ser irritante.

E aí, passado o efeito inicial, à longo-prazo, a compressão da música deixa de ser agradável, e se torna um problema.
Mas beleza, você já comprou o CD mesmo.

O vídeo abaixo explica com clareza o processo de compressão:


Ou seja, o som mais alto e distorcido tende a incomodar com o passar do tempo. Inconscientemente o ouvinte baixará o volume devido à fadiga auditiva. Com isso, deixará de perceber todos os detalhes da música.

Isso é culpa de quem? Dos produtores, ou do artista que permite tal ação? Não sei... Acho que dos dois.

MEDINDO A MARGEM DINÂMICA

É possível medir a compressão de uma música, com um medidor de margem dinâmica. Apesar do nome feio, o princípio é simples.
Um software faz a análise dos picos e vales de uma música... Se a diferença entre o som mais alto e o mais baixo (em termos de volume, não de notas) for grande, isso significa que a música não foi comprimida e tem uma boa dinâmica. Já se a diferença for pequena, estamos falando de lixo.

Você pode fazer esse teste rapidamente no seguinte link: DR Database. Lá você encontrará uma grande base de dados, e se não encontrar o que procura, poderá upar seu material.

O site permite analisar os álbums em uma escala de 1 à 20. 20 significa uma alta dinâmica, e 1 nenhuma dinâmica (um álbum extremamente comprimido).

Alguns exemplos de álbuns (DR é a margem dinâmica):

Johnny Winter - 1969 - The Progressive Blues Experiment: DR 14, uma boa qualidade.
Deep Purple - 1972 - Machine Head: DR 13, boa qualidade também.
Judas Priest - 1980 - British Steel: DR 12, ainda tá tranquilo.
Sky Architect - 2011 - A Dying Man's Hymn: DR 10, tá favorável.
Iron Maiden - 2015 - The Book of Souls: DR 8, pô donzela, vai com calma aí.
Baroness - 2015 - Purple: DR 4, um insulto ao ouvinte.

Curiosamente, as músicas mais atuais apresentam um maior nível de compressão. É justamente essa a resposta da pergunta que fiz no título do post.

NÃO É NOSTALGIA

A música atual soa pior mesmo! As frases que eu citei no começo desse texto são quase sempre verdadeiras. Talvez apenas os porquês estejam equivocados.
Oi? Falou comigo? Peraí, vou abaixar o volume...

A música atual soa pior porque ela está cada vez mais comprimida! E não porque “não se fazem mais músicos como antigamente”.

Até quando essa guerra continuará?
Minha opinião: Para sempre.

E os que admiram uma boa música, serão cada vez mais torturados.

Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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