David Bowie - Blackstar (2016): O réquiem marciano.


A arte depende do contexto. Analisar a arte sem relacionar seus laços com o mundo não artístico é desperdício.
O próprio David Bowie já provou isso mais de uma vez. Ele sempre foi um mestre na criação de músicas, personagens, e imagens. Alguns tão fascinantes quanto misteriosos.

BLACKSTAR E O OCULTISMO

Quando Blackstar veio ao mercado, a recepção da crítica foi positiva. Mesmo sem o devido contexto ser apresentado ao ouvinte.
Muito se especulava sobre as mensagens estranhas contidas nas letras do álbum. Havia um quê de dadaísmo, uma falta de lógica, frases jogadas ao vento e sem sentido.

Bowie foi muito sagaz ao chamar o álbum de Blackstar. Primeiro porque a estrela é um símbolo praticamente onipresente em diversas religiões, seitas, referências históricas... Ela, por si só, já abre um leque infinito de interpretações.
E quando a associação se junta à cor negra, podemos perder horas e horas no bar discutindo seus significados.

Outro fato curioso é que esse é o primeiro álbum de sua vasta discografia em que Bowie não aparece na capa.
A única imagem presente é a estrela negra. Seria Bowie a estrela negra? E os símbolos desenhados abaixo da estrela? Um alfabeto oculto?

Blackstar é provavelmente o trabalho mais experimental de David Bowie, desde Low (1977). Uma obra surreal, que deixou tudo mais claro e estranhamente belo quando o devido contexto foi apresentado.
O starman morreu de câncer, dois dias após o lançamento de Blackstar. Um câncer que estava muito bem escondido, e apesar de estar sendo tratado há 18 meses, apenas as pessoas mais próximas tinham conhecimento do seu real estado de saúde.

Esse foi um álbum de despedida. Agora todas as letras confusas e perturbadoras passam a fazer sentido. Bowie escreveu seu testamento, seu último suspiro artístico.
Bowie e seu testamento artístico, representado no clipe de Blackstar.

CLARA MENSAGEM

Com o contexto em mãos (sua morte), o álbum passa a ter outro significado. A tal estrela negra e suas infinitas interpretações convergem para motivos claros e quase óbvios. Daqueles do tipo “como ninguém pensou nisso antes?”.

Para começar, a palavra “blackstar” é utilizada por oncologistas como o nome de lesões cancerígenas.

Outra associação que pode ser feita é com o rei do rock, Elvis Presley. Bowie nunca negou ser um grande fã dele, além do fato de ambos dividirem a mesma data de aniversário.
Há uma canção do Elvis chamada Black Star. Nela, o cantor aborda questões como a mortalidade. Sente só a primeira estrofe da música: “Todo homem possui uma estrela negra/ Uma estrela negra sobre seu ombro/ E quando o homem vê essa estrela/ Ele sabe que é sua hora, sua hora chegou”.
“Sabe qual é o código Unicode do símbolo ★? O código é U+2605. Sabe o que aconteceu em 26/05? Aniversário de Mick Ronson, ex-guitarrista e produtor de Bowie. Sabe do que ele morreu? Câncer. Coincidência?”

EXPERIMENTAÇÃO E JAZZ

Bowie bebeu de fontes bastante atuais para compor Blackstar. Uma delas foi Kendrick Lamar. Apesar de Bowie não ter nada parecido com Lamar em termos de sonoridade, Bowie e seu produtor, Tony Visconti, elogiaram muito a forma como as ideias eram dispostas pelo rapper.

Isso os estimulou a criar uma ordem que fugisse ao máximo do rock. E conseguiram. A faixa título abre o álbum recheada de influências jazzísticas e uma atmosfera perturbadora. Desde a referência inicial, na vila de Ormen, até os refrãos sombrios em que ele brinca com as possibilidades de estrelas. Blackstar é uma canção que merece muito mais do que um simples parágrafo em uma resenha.

Lazarus escancara a questão envolvendo mortalidade. Como na passagem bíblica de Lázaro, a morte penetra na vida, e a vida penetra na morte.
A voz frágil, quase sussurrante de Bowie, quando combinada com o vídeo do single – uma cama de hospital, um caixão, um armário, os olhos vendados... – deixa a atmosfera mórbida e com ar de despedida. Os únicos momentos em que o clima pesado é quebrado acontecem nas pontes de jazz, entre as estrofes.
Cicatrizes que não podem ser vistas.

A SEGUNDA PARTE

Apesar de eu ter falado da primeira e terceira música apenas, elas representam a primeira parte do álbum: O conflito com a morte.
Existem outras duas músicas que servem apenas de enchimento para essa etapa. Falo de 'Tis a Pity She Was a Whore e Sue (Or In a Season of Crime). Ambas são remakes de músicas gravadas pelo camaleão em 2014.

A segunda parte do disco começa na quinta faixa e lida com referências de seu passado. De certa forma, uma aceitação para seu fim. Girl Love Me introduz o cenário.
A instrumentação é dissonante, muito eco e quebras de estrutura. Como se isso já não bastasse para a criação de uma perda de orientação, as letras estão uma parte em inglês, outra em Nadsat (vocabulário criado por Anthony Burgess para os diálogos dos delinquentes em Laranja Mecânica) e uma terceira parte em Polari (uma linguagem de gírias popular nos clubes gays de Londres, lá pros idos de 70).

Dollar Days é a canção mais auto-referencial de Bowie, falando sobre a indústria da música, seus fãs, e sua inevitável morte (“Eu estou morrendo também/ Eu estou tentando”).

A saída derradeira é com I Can't Give Everything Away. Logo na introdução é possível notar discretamente uma gaita reproduzindo o tema de A New Career in a New Town, uma música de 1977, de seu álbum Low, sobre seguir em frente e começar algo novo.
Talvez esse tenha sido o sentimento dele com relação à morte.

BOA VIAGEM CAMALEÃO

Em sua despedida, David Bowie entregou muito mais do que um simples álbum. Ele, que nunca se considerou lá muito humano (um mortal com potencial de super-homem, é como ele se definiu), mostrou como fazer uma saideira.

Agora, seja lá em qual planeta ele estiver: Marte, Vênus, Júpiter... Estamos nós aqui, ouvindo seu réquiem.

How many times does an angel fall? How many people lie instead of talking tall? He trod on sacred ground, he cried loud into the crowd.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: David Bowie
Ano: 2016
Álbum: Blackstar
Gênero: Art Rock
País: Inglaterra
Integrantes: Ben Monder (guitarra), David Bowie (vocal), Donny McCaslin (saxofone), Mark Guiliana (bacteria), Tim Lefebvre (baixo).

MÚSICAS:
1 - Blackstar
2 - 'Tis a Pity She Was a Whore
3 - Lazarus
4 - Sue (Or In a Season of Crime)
5 - Girl Loves Me
6 - Dollar Days
7 - I Can't Give Everything Away



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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