Lost: Por que eu teria medo de um chapéu?


"Quando o mistério é impressionante demais, a gente não ousa desobedecer." (Antoine de Saint-Exupéry)

As letras do Riverside sempre tiveram um lado mais intimista e questionador. E apesar de o último álbum (Love, Fear and the Time Machine) não chegar a ser conceitual, ele aborda de forma intensa as questões citadas no título. O amor, o medo, e o tempo.

A faixa inicial, Lost (Why Should I Be Freightened by a Hat?), me causou bastante curiosidade. Afinal, que diabos significa esse título (e refrão), perguntando por que eu deveria me assustar com um chapéu?

De forma geral e simplificada a letra é uma introdução do conteúdo das próximas músicas. Ela aborda o medo, pois o autor está assumidamente perdido (e isso o assusta), o amor (e de como ele tem medo de encontrá-lo), e por fim, o tempo (aí entra o chapéu).

Bem, para que tudo faça sentido, terei que adiantar logo de cara o gran finale! A letra é baseada no livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.
Seria isso apenas um inofensivo chapéu?

PERDIDO (POR QUE EU DEVERIA TER MEDO DE UM CHAPÉU?)
Eu caí novamente
De uma estrela
Em uma ilha deserta
Repleta de céus
E eu vi um garoto
Procurando algo
Sonhando com seu futuro
Do meu passado

Na história original o aviador cai com seu avião no meio do deserto do Saara. Após a solitária primeira noite, ele é acordado por um garoto, que pede para o aviador desenhar um carneiro.
Apesar de aparentemente sem sentido, essa passagem esclarece a preocupação do garoto com seu futuro, pois, como explicado mais adiante no livro, o carneiro teria um papel importante no controle dos baobás.

O Riverside faz algumas pequenas mudanças na história, mas mantém o conceito. Ao invés de avião, a queda foi de uma estrela. E uma ilha toma o lugar do deserto.

Logo eu desenhei um oceano
Cativei o sol
E afundei os meus pés
Dentro da areia
Pouco a pouco comecei
A entender
Como sinto falta da liberdade
E do barulho das ondas

Aqui são traçados diversos paralelos. Na história original o aviador desenha um carneiro, e o garoto cativa uma raposa (cativar, no livro, tem o sentido de tornar-se amigo).

Já o autor da música desenha o oceano e cativa o sol.
Eu entendo o fato de desenhar o oceano como a representação do desejo de explorar novos mares, novos lugares. E tornar-se amigo do sol pode ser visto como a busca por ambições e metas, já que o sol é um símbolo diretamente ligado à prosperidade.

Em contrapartida, ele fica preso a essa busca pela prosperidade. Isso fica bem claro pela frase “afundei os meus pés dentro da areia”. Ele tem que abrir mão da liberdade para alcançar a prosperidade, e aos poucos se dá conta de como faz falta ser livre.
Esse é um dilema bastante moderno. O que você precisa fazer para conquistar seus objetivos e metas? E quanto isso vai custar em termos de tempo e sacrifícios pessoais?
Todos desejam o sol, mas muitos se esquecem do preço que ele cobra.

Venha
Siga-me
Vamos descer para onde corre o rio
Um dia
Apenas você e eu
Vamos encontrar a ponte para a Terra do Nunca

No refrão, quem assume a narrativa é o garoto. Enquanto que na história original o garoto chama o aviador para procurarem água no deserto, e encontrarem a serpente que poderá levar o garoto de volta ao seu asteroide, na versão do Riverside o garoto inicia uma busca pela “Terra do Nunca”, uma ilha fictícia do livro Peter Pan, que pode ser utilizada como uma metáfora para o escapismo.

E é justamente esse escapismo que é buscado. Na estrofe anterior o autor reclama da falta de liberdade. Por isso temos essa proposta tentadora do garoto.

Eu estava com medo
De mil chapéus
Fugindo das respostas
Perdendo meu orgulho
Tinha medo de falhar
E do amor verdadeiro
Mas eu não me arrependo
Eu sou o que eu perdi

A primeira frase, “eu estava com medo de mil chapéus”, é uma clara referência ao livro. Logo no começo, o aviador, quando criança, desenhou uma jiboia engolindo um elefante. Era para ser um desenho assustador.
Mas, quando os adultos viam essa figura, eles não se assustavam. Apenas questionavam: “Por que eu deveria ter medo de um chapéu?”.

Quando o Riverside diz estar com medo de mil chapéus, significa que o escapismo proposto pelo garoto foi atingido. Agora o narrador abriu mão das ambições, recuperou a liberdade, e voltou a ver o mundo como uma criança. O desenho voltou a ser assustador. Não é apenas um chapéu.

Ele deixa claro que não foi uma decisão fácil, para isso foi necessário perder seu orgulho. Mas, em contrapartida, foi perdido o medo de falhar e o medo do amor.
O final revela que não houve arrependimentos ao se tomar essa decisão, a liberdade vale mais do que a ambição. Ele é o que ele perdeu. Logo, ele é livre.

E Janis Joplin já dizia... “Liberdade é apenas outra palavra para nada a perder”. Ela estava certa.
O pequeno príncipe ficaria feliz em saber que virou nome de cerveja.

Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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