Megadeth - Dystopia (2016): Donald Trump ou Dave Mustaine?


Distopia pode ser compreendida como a antítese da utopia. Trata-se de um estado de totalitarismo e controle opressor da sociedade.

Esse cenário costuma ser descrito em histórias de ficção científica, em ambientes cyberpunks, cuja tecnologia domina o homem e os humanos deixam de ter o controle.

O CYBERPUNK

A influência do cyberpunk é inegável em Dystopia. Toda a ambientação criada pelo Megadeth gira em torno desse sentido.
Isso pode ser notado logo na capa do álbum, com um humanoide deixando seu braço robótico aparente.

Os vídeos lançados no canal oficial da banda reforçam essa percepção. Tanto na música Dystopia, quanto em The Threat Is Real, os clipes se passam em cenários futuristas que retratam uma guerra entre humanos e robôs.

Então, apesar de não chegar a ser um álbum conceitual, o Megadeth aposta em um lançamento que segue uma linha meio que única de tema (existem algumas exceções no meio do caminho).
Além do cyberpunk, a política e o terrorismo são o plano de fundo. Mas falarei disso mais pra frente.
Influências do cyberpunk criam o cenário de distopia.

NOVIDADES NA BANDA

O Megadeth nunca presou muito pela estabilidade. Criado por Dave Mustaine após treta com a galera do Metallica, o modus operandi da banda sempre foi repleto de trocas nos integrantes.
A coisa funciona basicamente da seguinte forma: Megadeth é Dave Mustaine mais três caras aleatórios que derem na telha do chefe.

David Ellefson é o único que goza de certa estabilidade. Mas ainda assim o baixista já teve seus momentos de idas e vindas.

Então, para manter a tradição mutante e após o fiasco de Super Collider (2013), foram anunciadas mudanças na banda.
Chris Adler (Lamb of God) assumiu as baquetas, e o brasileiro Kiko Loureiro (Angra) foi pra guitarra.

Dave Mustaine pode ser mala, mas não é bobo. Suas escolhas foram grandes acertos em termos comerciais. Ao trazer dois ícones de gêneros distintos, o Megadeth se tornou, no mínimo, alvo de grande curiosidade por parte de fãs que antes cagavam para o thrash metal.

Essa foi uma forma fácil de atrair novos ouvintes e rejuvenescer seu público. Mustaine acertou comercialmente. Mas e a música?

MEGADETH SENDO MEGADETH

A expectativa em torno da nova formação era alta. E parece que é assim que o Megadeth funciona bem. Dave Mustaine precisa de pressão e holofotes.

Enquanto a banda acumulava um período de calmaria midiática, foram lançados apenas trabalhos medianos. Bastou o caos aparecer, e o Megadeth lançou um dos melhores discos desde Endgame (2009).

Estou exagerando? Ouça e tire suas conclusões.
O trabalho instrumental é muito bem construído, mantendo a simplicidade essencial ao gênero (confesso que eu tinha medo do Kiko Loureiro querer firular demais), e ao mesmo tempo riffs poderosíssimos.

A abertura, com The Threat Is Real, já mostra que os caras não estão de brincadeira. As guitarras  largam rasgando a introdução vocal, e Kiko Loureiro conduz a pancadaria. Sem meias palavras, Mustaine é Mustaine e introduz a temática polêmica de Dystopia: “Eliminação justificada, ninguém parece se importar/ O Messias ou assassinatos em massa?/ Não há controle de quem atravessa a porta”.

Esse pedaço de letra parece confuso, mas colocado no contexto faz todo o sentido. O terrorismo é o cerne de Dystopia, e Dave não poupa palavras ao culpar o governo por toda a permissividade envolvendo o tema.
Para ele, o governo é o responsável pelo fracasso do combate ao terrorismo. Entre as causas, está um fraco controle de fronteiras, e muita preocupação com questões burocráticas e reuniões que não levam a nada.

Enquanto isso, os ataques em massa são legalizados em nome da religião. É a queda da civilização ocidental enquanto “um câncer nos come vivos” (palavras dele, não minhas).
“O discurso político está presente, e é controverso. Ao retratar a América como vítima, Dave Mustaine abre espaço para polêmicas. Mas esse é o espírito! Isso que faz o Megadeth ser Megadeth.”
Donald Trump aprovou este álbum!

SEM PERDER O FÔLEGO

Dystopia não perde o ritmo. Ele começa pesado e segue assim.
A segunda faixa, que leva o nome do álbum, é o grande momento. A banda mostra o melhor de todos os seus músicos, com Kiko e Dave fazendo duelos sensacionais.

Existem vários pontos que podem ser destacados. Bullet to the Brain (apesar de fugir do conceito do álbum), Post American World, Lying in State...

O Megadeth conseguiu unir um ritmo pesado do começo ao fim, sem soar cansativo ou repetitivo.

A banda também manteve a tradição de sempre ter um cover no seu disco. Dessa vez o escolhido foi Foreign Policy, originalmente escrito pela banda Fear.
Para ser sincero não me agradou a pegada punk nas guitarras do Megadeth. A versão original é bem melhor. Vamos deixar o punk para quem sabe fazê-lo!

O único momento ruim de Dystopia é a faixa The Empreror. Ela é totalmente fora de contexto, tanto liricamente quanto instrumentalmente. A letra parece mais de alguma banda de emo pop punk do que de thrash metal. Nem Kiko se salva, o riff é qualquer nota. Ninguém acertou nessa faixa.

XENOFÓBICO OU NÃO?

O fato de falar do terrorismo colocando a América como vítima fez com que Dystopia fosse muito mal recebido pela crítica. Acusações de xenofobia e preconceito pipocaram para tudo que é lado.

Realmente, em alguns momentos você fica na dúvida se está rolando um disco do Megadeth ou um discurso do Donald Trump.

Mustaine é polêmico e pode falar muita besteira. Mas não se esqueçam de que estamos na era do mimimi. Dystopia pega pesado em certos momentos, mas não comete nenhum crime. É apenas um ponto de vista, e não uma apologia.

Você pode não concordar. Aliás, tem todo o direito de não concordar. Mas, justiça seja feita, estamos falando de um dos melhores lançamentos da discografia do Megadeth. E pelo menos eles tem coragem de sair de cima do muro e colocar do dedo na ferida.

What we are witnessing is the decline of western civilization. Crushing our potential and piling it on, how will history portray us?



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FICHA TÉCNICA:
Artista: Megadeth
Ano: 2016
Álbum: Dystopia
Gênero: Thrash Metal
País: Estados Unidos
Integrantes: Chris Adler (bateria), Dave Mustaine (vocal e guitarra), David Ellefson (baixo), Kiko Loureiro (guitarra).





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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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