Witchcraft - Nucleus (2016): Sem compromisso.


Se você fosse gravar um álbum, para quem seria? Qual seria o objetivo dele? Alguns buscam sucesso, outros procuram sonoridades distintas, a maioria quer uma grana... Eu gosto daqueles que contam histórias e dos ousados.

E se eu te falar que Nucleus não se encaixa em nenhuma das categorias acima?

A ARTE PELA ARTE

A arte pela arte é um conceito que surgiu em um passado pra lá de distante, com um carinha barbudo chamado Aristóteles.
A ideia é desligar a arte de razões funcionais, pedagógicas ou morais. A arte é sem compromisso, é ela por si só. Sem amarras, sem razões.

Alguns podem torcer o nariz para esse conceito. Se for o seu caso, saiba que não está sozinho. Kant chama essa arte de desinteressada. Segundo o filósofo prussiano, a arte propicia o prazer da reflexão. Seu propósito não é despertar o simples prazer dos sentidos, mas sim fazer pensar.

Você pode escolher o time de Aristóteles, ou o time de Kant. Porém, saiba que o Witchcraft ficou ao lado do filósofo grego. Nucleus é sem compromisso, de certa forma é desinteressado. Se isso é bom ou ruim, cabe ao time que você escolheu.

SUA OPINIÃO NÃO IMPORTA

Os suecos arrebentaram em 2012, com o disco Legend. Se você nunca ouviu, pare de ler esse texto imediatamente, e ouça. Será muito mais útil para sua vida.

Com Legend, a banda conseguiu entrar no radar dos roqueiros e metaleiros. Todos aguardavam ansiosamente um próximo trabalho.

Quatro anos depois, e aqui estamos. O sucesso de 2012 garantiu que Nucleus seria ouvido por muitos, mesmo a banda desistindo totalmente de qualquer divulgação. Eles abriram mão de shows, nada de clipes, e nenhuma entrevista.
Os caras gravaram um álbum porque estavam com vontade de tirar um som, pouco importando quem iria ouvir, ou até, se alguém iria ouvir.

Essa postura de “dane-se sua opinião” pode parecer meio falsa, é verdade. Entretanto confesso que no caso deles tudo parece bem genuíno. O Facebook dos caras é hilário. Eles se auto-ofendem, dizendo que a banda é ruim, postam frases e fotos nonsense, tretam com a galera... Fazem o mais perfeito anti-marketing.
Facebook da banda reúne algumas pérolas em tretas com fãs.
“Definitivamente o Witchcraft sabe xingar muito no Twitter. Tô pensando em publicar minha resenha lá, só para ser xingado também.
Pensando bem, não precisa. Já sou xingado na minha página.”

É AUTÊNTICO

Quando eu disse acima que todo o anti-marketing e postura do grupo parecia genuíno, me baseei em fatos que vão muito além do Facebook e divulgação nula.

O próprio disco soa como um grande foda-se. A gravação é bem rústica e muitas vezes os caras entram em grandes jams que não levam a nada.

Com uma formação totalmente diferente da de 2012, em que apenas o fundador Magnus Pelander se manteve, o Witchcraft parte para canções de longa duração, com uma sonoridade mais sombria, à la Black Sabbath e Pentagram. Não deixa de ser uma volta às origens, ao núcleo.

Há um pé no hard rock, já em certos momentos o conjunto mergulha de cabeça no doom metal.

O ponto mais alto é a faixa título, Nucleus. São 14 minutos de um clima pesado, lento e arrastado. Os momentos lentos são quebrados por frases distorcidas, e rapidamente retomados com coros e riffs em um loop quase infinito.
A falha fica um pouco em torno dessa repetição. Por vezes ela contribui para o clima, em outras ela passa da conta.

The Outcast, na contramão de Nucleus, é mais alegre e agitada. Um belo hard rock, com um refrão meio manjadinho. Outro ponto alto.

O disco todo é muito consistente. Não há um momento negativo. No entanto, sinto que ele fica meio cansativo a partir da sexta música (The Obsessed). O exemplo desse cansaço pode ser visto em Breakdown. O todo é incrível, só que 15 minutos são demais para duas ou três bases. Ela poderia ter metade do tamanho.

A METADE NÃO BASTA

Falar que Nucleus poderia ter metade da duração faz sentido. O ponto é: Isso não bastava para o Witchcraft.
Eles queriam curtir um som, e que se dane sua opinião. Não importa quanto tempo tem a música, se eles estiverem na vibe, vão continuar tocando.

E mesmo sem querer saber o que vamos pensar, Nucleus termina nos mostrando um bom álbum, sem aquele compromisso de ser bom.

Reclaim the status of the blind; reinvent the doors of perception.

----------------------------------------

FICHA TÉCNICA:
Artista: Witchcraft
Ano: 2016
Álbum: Nucleus
Gênero: Doom Metal / Hard Rock
País: Suécia
Integrantes: Magnus Pelander (vocal e guitarra), Rage Widerberg (bateria), Tobias Anger (baixo).

MÚSICAS:
1 - Malstroem
2 - Theory of Consequence
3 - The Outcast
4 - Nucleus
5 - An Exorcism of Doubts
6 - The Obsessed
7 - To Transcend Bitterness
8 - Helpless
9 - Breakdown



----------------------------------------


Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

0 comentários :

Postar um comentário