Google e a música: O pesadelo de Kant?


Você já parou para pensar que um dia os robôs poderiam tomar o lugar de nós, humanos, na música? Ou isso é um cenário muito distante?

Se você respondeu sim para a segunda pergunta, deixa eu te dar um choque de realidade. A foto acima é de uma banda chamada Z-Machines. O baterista? Um robô. O tecladista? Também. E na guitarra? Bem, essa eu deixo para você adivinhar.

AINDA PRECISAM DE NÓS

Além do Z-Machines, existem outras bandas nessa pegada, como o Compressorhead. Porém, apesar de formados por robôs, ambos os conjuntos possuem uma deficiência: Não são capazes de criar.

Exato. Apesar de poderem tocar qualquer coisa, a criatividade não é o forte deles. Eles têm a limitação da criação. São incapazes de aprender e construir uma música do zero.
Todos precisam de um programador para ensinar-lhes a próxima música. Sem essa programação, eles são tão úteis quanto um celular sem bateria.

Por isso, apesar de a música estar nas mãos desses robôs, ela ainda é criada na cabeça dos humanos. O robô é apenas um prestador de serviço.

KANT E A ARTE

“A arte é algo humano, exige intenção, decisão, e raciocínio daquele que a fabrica”. Essa frase faz todo o sentido, não?
Ou seria possível algo não humano construir arte?

Bem, a frase acima é de um filósofo que você provavelmente já ouviu falar em alguma aula chata de filosofia ou sociologia, Immanuel Kant.
Não vou me alongar sobre a história dele, não é o foco desse texto. Mas Kant é considerado um dos filósofos mais importantes da era moderna.

Dentro as sua obra, ele debateu muito questões como a estética e a arte. E para o filósofo, se não for humano, não é arte. A arte deve propiciar o prazer da reflexão, seu propósito não é despertar um simples prazer dos sentidos, mas sim fazer pensar.
Nietzsche: “Legal, parça. Mas por que você não fala sobre a morte de Deus?”

GOOGLE VERSUS KANT

Já mostrei que os robôs são capazes de tocar, só que totalmente incapazes de criar música. Também mostrei a visão que Kant tem da arte, e essa visão é compatível com essa limitação dos robôs.
Eles não são humanos, logo não podem produzir arte (apenas reproduzir).

Eis que apareceu o Google. Mais especificamente, um projeto dentro do Google chamado Projeto Magenta.
Os caras anunciaram que estão desenvolvendo um sistema capaz de colocar a arte dentro da inteligência artificial. A ideia é criar uma máquina com a habilidade de produzir músicas novas, sem qualquer dependência humana.
É como se a banda Z-Machines, citada lá no primeiro parágrafo, adquirisse um robô compositor.

Acha isso surreal ou impensável? Então ouça a música abaixo, é um rápido dueto de uma guitarra e uma bateria:


O que você achou? Pode até ser ruim, claramente tem algumas notas fora de lugar e sem contexto na execução. É um dueto bem meia boca.
Agora deixa eu te contar a história desse dueto...

Sou formado em engenharia. E talvez pela minha formação exata, demasiado exata, acredito mais na matemática do que em qualquer outra coisa.
Ao ficar sabendo do Projeto Magenta, bolei um desafio para mim mesmo: Tentar escrever um algoritmo capaz de criar música. Tenho um conhecimento pífio de teoria musical, um conhecimento ridículo de programação, mas acima de tudo, não acredito em Kant.

Algumas horas programando, e o resultado foi esse dueto que você ouviu aí. É uma música gerada de maneira totalmente aleatória. Posso gerar mais mil músicas, e todas ficarão bem diferentes uma das outras.
Sem nenhum esforço intelectual, meu computador agora é capaz de compor.

Óbvio que tenho minhas (grandes) limitações. Meu computador só compõe guitarra e bateria, não manja muito de acordes, e jamais fará um álbum conceitual.
O que usei é programação básica e regras matemáticas aplicadas à teoria musical, além de um gerador de aleatoriedade.

Se eu fui capaz de fazer isso, imagina a força desse projeto do Google?? E se você ainda acha que os robôs não serão capazes de compor, comece a rever seus conceitos. O Google divulgou uma pequena amostra do que a máquina deles é capaz de criar. Confira abaixo:


PROJETO MAGENTA

Diferentemente das minhas limitações cognitivas, o Google é bem mais esperto e não vai trabalhar com programação baseada em algoritmos, mas sim com inteligência artificial e aprendizado de máquina.
Essa é, obviamente, uma ferramenta muito mais poderosa, pois permite um aperfeiçoamento contínuo do computador.

A canção que você ouviu acima foi criada usando uma rede neural que foi alimentada com toneladas de músicas prontas. Com a exposição de uma penca de exemplos, a rede neural começa a aprender quais notas funcionam e quais não funcionam, até o ponto de criar uma música completa.

Esforços para criar música a partir de computadores existem há muito tempo, a grande inovação do Google está em utilizar o aprendizado por meio das redes neurais e o fato de abrir o projeto para qualquer mortal participar, alimentando quantidades gigantescas de conhecimento.

Você pode conferir o site oficial aqui.

KANT VIU, KANT VÊ

O que diria Kant se ficasse sabendo desse projeto?
David Cope, um dos pioneiros na geração de música por computador, acredita ser inevitável que os computadores tomem o lugar dos humanos na composição musical: “Vai acontecer, assim como os carros aconteceram, e hoje não usamos mais cavalos como meio de transporte”.

Seria esse o fim da música como arte? Ou é apenas uma grande oportunidade de geração infinita e quase instantânea de novos materiais?

Até onde os robôs serão capazes de chegar?

Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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