Steven Wilson - To the Bone (2017): O papa é pop.


Em toda a existência desse grandioso e influente blog, Stevão foi (provavelmente) o artista mais citado.
É quase que um exercício surreal imaginar a cena prog atual sem o nome do Steven Wilson por trás... Seja pelo seu trabalho solo, pelo seu legado no Porcupine Tree, ou pelos seus 348 projetos paralelos, produzindo alguma coisa para alguém.

VOLÁTIL

A verdade é que estamos falando de um cara que nunca foi lá muito firme com suas opiniões e sonoridades (e isso não é uma crítica, considero uma virtude).
Só que dessa vez Steven Wilson chutou o balde.

Com toda a reputação que ele construiu na cena prog, chegando a níveis de popularidade consideráveis dentro de um estilo tão conservador para novos nomes, o atual papa do prog simplesmente resolveu trucar, ligar o foda-se, e fazer um álbum que é praticamente o anti-herói do rock progressivo.
“Depois do lançamento de To the Bone, ficou meio que evidente que o terreno já estava sendo preparado para uma sonoridade bem mais simplificada. As pistas estavam claras, mas ninguém deu muita bola.”
Nessa mega resenha do Blog do Gusta, ele detalha bem sobre as pistas dadas pelo Stevão, que já indicavam uma mudança de rumos.

BRAVO MUNDO NOVO

Do prog ao pop. Foi um choque. Uma decepção.

Eu não estava psicologicamente preparado, e recebi o álbum de maneira bem negativa. Tudo o que eu elogiei nos trabalhos anteriores, como o imenso alcance multimídia de Hand. Cannot. Erase., ficou no passado.

To the Bone é apenas um álbum, e nada além. Não tem história, não tem livro, não tem cenário fodão, não tem blog... Tem apenas imagens do rosto de um Steven narcisista.
1001 fotos diferentes do mesmo rosto.

Eu odeio esse termo, mas esse é um típico trabalho de pop progressivo.
A descrição do próprio músico é a de “uma gravação inspirada, de diversos modos, por trabalhos de pop progressivo que eu amei na minha juventude”.
Em outras palavras: Se você não curte a fase pop de Peter Gabriel, corra para as colinas.

NINET TAYEB

Tanto em Hand. Cannot. Erase., quanto no desnecessário 4 ½, Steven encontrou na excelente cantora israelense um ponto de grande força.
E eu escrevi que Ninet deveria participar mais em seus próximos trabalhos, não apenas em momentos esporádicos de uma música ou outra.

O ponto alto de To the Bone é que isso acontece. Ninet está mais ativa ao longo das músicas.
Fato que prova a importância deste blog no meio musical, pois obviamente o Steven Wilson só fez isso porque leu as minhas resenhas e concordou com minha observação de que a Ninet deveria aparecer mais.

Invejosos dirão que foi apenas coincidência.
Ninet Tayeb durante discurso de agradecimento ao blog.

O SOM

Genericamente falando, as letras do álbum passam por temas contemporâneos, como as bolhas online em que vivemos, questões envolvendo refugiados, terrorismo, fundamentalismo religioso, escapismos...

To the Bone e Nowhere Now são as faixas que abrem o álbum. Ambas soam interessantes dentro da nova proposta. Estrutura simples, bateria meio repetitiva demais, e letras bacanas. Não são aqueles pops ordinários que vemos por aí, mas também nada muito encantador. Um aquecimento.

A parada começa a ficar acima da média com Pariah. Não por acaso é a música de trabalho do álbum.
A música é um diálogo em que o homem (Steven) se lamenta de sua vida social digital, e em contraste uma mulher (Ninet) tenta mostrar que dias melhores virão.
Steven declarou explicitamente que So (1986), do Peter Gabriel, é uma grande inspiração. Coincidentemente (ou não), So tem uma música chamada Don’t Give Up com uma proposta bastante similar à Pariah: Um homem desiludido (Peter Gabriel) e uma mulher otimista (Kate Bush) contrastando os discursos ao longo da canção.

Outra coisa interessante sobre Pariah é que usei a música para fazer um experimento musical com a minha namorada.
Ela tem aversão ao rock progressivo, e quando começa a tocar qualquer som similar no carro, sou obrigado a ir para a próxima faixa. Logo, ouvir Steven Wilson com ela seria uma experiência improvável.
Coloquei Pariah despretensiosamente no meio de uma tracklist genérica e... Sim, a música foi ouvida do início ao fim, e ainda recebeu elogios. Ou seja, Steven Wilson parece ter tido êxito com a ideia de democratizar mais seu som.
Acreditem: Se a música passou pelo criterioso filtro de prog da minha namorada, ela definitivamente tem potencial para ser um hit do pop!
Steven Wilson tomando tiros de paintball durante o clipe de Pariah.

Sem nenhum grande momento como Pariah, o resto do álbum avança em um padrão entre bom e ótimo.
Permanating é divertida (ignore o clipe tosco e evite um momento de vergonha alheia), Blank Tapes tem uma melancolia e beleza, People Who Eat Darkness foi escrita após os ataques na Bataclan, em Paris, e fala sobre não conhecer quem vive ao seu lado, e Song of I conta com um som quase exageradamente simples e uma bela participação da cantora Sophie Hunger (cantora bem famosa no Brasil, pela sua música presente na novela Velho Chico).

O ponto mais negativo é The Same Asylum as Before. O falsete deixa a música inaudível e faz Steven soar como um cantor amador de churrascaria. Sem contar que a música é praticamente um remake de Prodigal, uma canção da época do Porcupine Tree.

Para os fãs de prog, o único e grande refúgio é Detonation. É o momento mais roots do álbum e que serve como um lembrete de que o cara ainda manja dos paranauês.

O PAPA FOI PROG

Dizem que o papa é prog (literalmente).
Mas metaforicamente falando, Steven Wilson pôde ser considerado o mais recente grande nome do prog, o verdadeiro papa do prog.

Entretanto, parece que o nosso papa metafórico se converteu. E como diria Humberto Gessinger, agora o papa é pop.

I gave up all the late nights, I gave up haunting bars. I gave up all the drinking; and trashing all the cars.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Steven Wilson
Ano: 2017
Álbum: To the Bone
Gênero: Pop Rock / Rock Progressivo
País: Inglaterra
Integrantes: Adam Holzman (teclado e piano), Craig Blundell (bateria), David Kollar (guitarra), Jeremy Stacey (bateria), Nick Beggs (baixo), Ninet Tayeb (vocal), Sophie Hunger (vocal), Steven Wilson (vocal, teclado, guitarra e baixo).

MÚSICAS:
1 - To the Bone
2 - Nowhere Now
3 - Pariah
4 - The Same Asylum as Before
5 - Refuge
6 - Permanating
7 - Blank Tapes
8 - People Who Eat Darkness
9 - Song of I
10 - Detonation
11 - Song of Unborn



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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