Camisa de Vênus - Camisa de Vênus (1983): A consolidação do rock baiano.


A Bahia sempre foi um dos grandes ninhos criativos do Brasil, principalmente quando o assunto é música.

Marcada por ritmos mais alegres e descontraídos, o estado teve papel fundamental no surgimento e desenvolvimento de gêneros como o samba, a bossa nova, o movimento da tropicália, e derivados...

E o velho rock, onde fica?

TOCA RAUL

O gênero permaneceu adormecido por anos na região. Houve alguns flertes com Os Novos Baianos, é verdade, mas nada muito dominante, apenas pequenas sombras nas guitarras de Pepeu Gomes.

Somente no meio dos anos 70 que Raul Seixas surge como um estranho no ninho. Parou por aí, nada de muito relevante tornou a surgir. O próprio Raul produzia um rock bem mais influenciado em sonoridades regionais. Pode-se dizer que ele nunca foi totalmente rock.
“Nos anos 70 o rock já rasgava o eixo sudeste. São Paulo ia de Made in Brazil à Patrulha do Espaço, Peso e Som Imaginário agitavam o Rio de Janeiro, e o famoso Clube da Esquina nasceu em BH... Já o nordeste se limitava a poucos e pontuais aventureiros.”

SÓ O PUNK SALVA

Até que, um radialista na casa dos 30 anos, sem nenhuma habilidade com instrumentos e melodias, viu no punk rock sua grande oportunidade.
Marcelo Nova juntou uma galera de amigos, e amigos de amigos, nascendo assim o Camisa de Vênus.

O polêmico nome é um sinônimo para preservativo. Vênus é uma referência à deusa romana da beleza e do amor.
O polêmico nome dificultou a divulgação da banda.

Após um compacto lançado por uma gravadora local, o conjunto despertou o interesse da grande Som Livre e lançou o seu primeiro álbum, homônimo à banda.
Problemas com a divulgação, com a gravadora, e com a censura afetaram as vendas, mas o caos já estava plantado: Contra tudo, contra todos, e contra eles mesmos, o grupo vingou.

O Camisa de Vênus respira o punk. A abertura com Passamos por isso é um tiro no mercado fonográfico e já mostra toda a acidez que está por vir (“Vê se conserva suas raízes, eles disseram/ Camisa de Vênus é alienação”).
Ela é o anúncio do anti-movimento. O tom jocoso e irônico derrama seu veneno no mainstream e desmoraliza os padrões que deveriam ser seguidos.

Não satisfeitos, eles resolvem aumentar o fator polêmica. Emplacam Metástase. O nome da música é alusão ao estado em que o câncer já está espalhado pelo corpo.
E os personagens dessa música? Hitler, Jesus, Marx e Freud. Todos colocados no mesmo patamar.

Em meio ao derramamento voraz de críticas e indagações, o Camisa de Vênus encontra espaço para criar hits, como Bete Morreu, um sucesso na época.
Uma música que narra nada mais nada menos que um estupro. Totalmente impensável nos dias de hoje. Já imaginaram o tanto de textão que ia rolar no Facebook?
De fato, os textões teriam certa razão.

Outros destaques ficam para O adventista, uma grande ironia sobre as crenças, Pronto pro suicídio, com as frustrações de um homem comum (“Disfarça suas mágoas entre as páginas da Veja/ O aluguel tá atrasado e acabou sua cerveja”), e Meu primo Zé, inspirado na música My Perfect Cousin da banda The Undertones.
The Undertones, influência direta.

Apesar de toda a competência do Marcelo Nova como letrista, o grupo resolveu fazer uma versão da música Negue, de 1978, imortalizada na voz de Maria Bethânia.
O resultado não podia ser diferente. Ficou uma catástrofe. Digamos que esse é aquele momento vergonha alheia.

A PEDRA NO SAPATO 36

Os baianos não primam pela qualidade. Muito pelo contrário, tecnicamente o disco é horrível. É uma quebra de paradigma sem nenhuma elegância.
Ruim? O seu papel na sociedade e o que ele representou ao cenário do rock baiano transcende qualquer reclamação nesse sentido.

Revolucionário para o seu tempo, e uma pedra no sapato da imprensa.

É ruim. Mas é bom... Muito bom.
Como diriam no punk: Faça você mesmo. Mesmo que faça mal feito.

Freud sacou, um dia; que ele podia pirar. Mas havia centenas; para ele analisar. Seu problema é esquizofrenia; agora pague e volte outro dia!

----------------------------------------

FICHA TÉCNICA:
Artista: Camisa de Vênus
Ano: 1983
Álbum: Camisa de Vênus
Gênero: Pós-Punk / Punk Rock
País: Brasil
Integrantes: Aldo Machado (bateria), Gustavo Mullem (guitarra), Karl Hummel (guitarra), Marcelo Nova (vocal), Robério Santana (baixo).

MÚSICAS:
1 - Passamos por isso
2 - Metástase
3 - Bete morreu
4 - Correndo sem parar
5 - Negue
6 - O adventista
7 - Dogmas tecnofacistas
8 - Homem não chora
9 - Passatempo
10 - Pronto pro suicídio
11 - Meu primo Zé



----------------------------------------


Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

0 comentários :

Postar um comentário