Carne Doce - Princesa (2016): Nem tão doce, nem tão princesa.


A primeira impressão é a que fica. Pelo menos isso é o que diz o ditado, propagado há anos.

Pois bem, logo que me deparei com o grupo Carne Doce, em uma audição sem compromisso e sem muita atenção da minha parte, a primeira impressão foi: Um rock meio sem sal (sem trocadilhos com o nome da banda!), ingênuo, leve, quase genérico.

NEM DE LONGE

Havia motivos para minha primeira impressão ter sido essa.
Ora, a banda tem a palavra doce no nome, isso já me remeteu uma ideia de algo menos agressivo. O álbum chama Princesa, outra palavra sem muito peso. Por fim, ao começar a audição, o primeiro contato é com o vocal harmonioso e quase aconchegante de Salma Jô.

Doce. Doce ilusão.
Minha primeira impressão caiu por terra em uma segunda audição mais completa e atenta. O Carne Doce é o oposto de tudo que eu disse antes.
“A própria banda se define, no site oficial deles, como uma mistura de delicadeza e selvageria, um universo de contrastes. É por aí.
Os goianos são uma ebulição controlada.”
Nem tão doce, nem tão princesa, e nem de longe o rock ingênuo que parecia ser.

QUANDO TERMINAR

A faixa que deu o título ao álbum soa quase como uma premonição: “Deixa pra julgar quando eu terminar/ Cê vai ter outra opinião”.

Sem medo de cutucar feridas, o Carne Doce visita temas polêmicos, como o aborto em Artemísia e o machismo em Falo.
Todo esse cenário rola ao som de um instrumental leve, com nítidas influências da música popular brasileira e doses de rock psicodélico.

O ar transgressor fica claro logo na abertura. “Moço, cê cala essa boca/ Moço, eu vô beijar sua boca/ .../ Taí, como eu previ/ Só é macho pras donzela”. Cetapesâno coloca a mulher na liderança e sob o vocal de Salma fica extremamente poderosa.
Princesa tem a mesma linha e é um dos maiores destaques do álbum.

Algumas músicas resolvem partir para um lado bem mais psicodélico do que o restante. Sereno é uma delas, muito bem colocada, a música funciona como uma boa quebra na pressão psicológica das duas faixas iniciais.
É um momento mais tranquilo, e passa a ditar um novo ritmo ao álbum.

Tudo vai muito bem até Carne lab. Confesso que aqui a carne azeda um pouco. O próprio nome já sugere, a música soa como um laboratório experimental.
Muita enrolação, pouca inspiração. São 10 minutos sem propósito e sem sentido. Não tenho nada contra jams instrumentais, pelo contrário, gosto. Só que esse caso passa longe de empolgar o ouvinte.

O pai também é fraca. A letra é muito boa, com colocações interessantes sobre a figura paterna... “Mas ainda assim tinha sempre razão/ Inclusive sobre mim/ Principalmente sobre mim”. Entretanto, a parte instrumental e a melodia não impressionam.

Depois de Carne lab e O pai, isso parecia tudo o que o Carne Doce podia oferecer. Um bom trabalho no geral, mas algumas inconsistências.
Ah é, melhor deixar para julgar quando terminar. Lembra?
Artemísia, uma erva abortiva. “É da minha natureza”.

JÁ TÁ CANSADO DA MINHA VOZ?

O melhor ficou guardado para o final. Artemísia foi escolhida para ser a principal música de trabalho, com um clipe meio perturbador e uma letra fazendo alusão ao aborto.
A mulher é colocada como deusa do próprio corpo e, como um deus, sequer precisa de justificativas, basta ela querer (ou não): “Não vai nascer/ Porque eu não quero/ Porque eu não quero e basta eu não querer”.

Décima faixa, Falo. “Já tá cansado da minha voz porque/ O tempo todo um timbre feminino é/ Pra maioria algo enjoativo”. Não, Salma, seu timbre está longe de ser enjoativo! Definitivamente, posso ouvir Princesa mais umas duzentas vezes sem cansar.
Toda a poesia do Carne Doce é derramada com um gosto amargo na boca, uma crítica ao machismo, indo do meio musical ao cotidiano.

Às vezes me pego reclamando que falta qualidade no cenário do rock nacional cantado em português. Não sei se é saudosismo exagerado da minha parte, ou se minha reclamação é justificável.
Não sei, sei lá. Só sei que aqui está um belo exemplo de que o rock nacional está longe do caixão.

Que não nos cansemos da voz de Salma e do Carne Doce, e que cada vez tenhamos mais novas vozes surgindo!

O RARO E O COMUM

Como disse lá no começo do texto, minha primeira impressão não foi das melhores. Por isso, por um instante, me envergonhei por não ter reconhecido a qualidade do álbum logo de primeira.

Hoje estou orgulhoso disso.

Só o que é comum é que raramente não é reconhecido. E o que é raro, é difícil de ser esquecido.

A ansiedade cobra um preço. Mas eu nunca pago a conta, então, enfim.

----------------------------------------

FICHA TÉCNICA:
Artista: Carne Doce
Ano: 2016
Álbum: Princesa
Gênero: Rock Psicodélico
País: Brasil
Integrantes: Aderson Maia (baixo), João Victor Santana (guitarra), Macloys Aquino (guitarra), Ricardo Machado (bateria), Salma Jô (vocal).

MÚSICAS:
1 - Cetapensâno
2 - Princesa
3 - Sereno
4 - Sombra
5 - Amiga
6 - Eu te odeio
7 - Carne lab
8 - O pai
9 - Artemísia
10 - Falo
11 - Açaí



----------------------------------------


Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

0 comentários :

Postar um comentário