Steven Wilson - 4½ (2016): Editar é divino.


Escrever é humano e editar é divino. Essa frase famosa, proferida pelo escritor Stephen King, se aplica para tudo e para todos. Eu confesso que não a conhecia até pouco tempo atrás, entretanto a cada dia que passa ela parece fazer mais sentido.

STEVEN WILSON E A EDIÇÃO

Steven Wilson, o astro do prog atual, pode ser considerado um mestre na edição. Eu já elogiei aqui a sua capacidade como produtor, e agora faço minhas considerações sobre o seu lado editor.

Sua discografia deixa clara a habilidade dele (com alguns pequenos desvios) de eliminar pontos redundantes e desnecessários, oferecendo ao ouvinte apenas o mais essencial de sua obra.

Isso nos proporciona trabalhos muito consistentes e capazes de te prender do início ao fim. É difícil achar uma parte chata ou entediante.

RECAÍDA

Nesse último disco, Steven Wilson tem uma recaída e resolve mostrar um material que por algum motivo ele julgou desnecessário em álbuns anteriores.
Ele usou um termo bonitinho para descrever esse reaproveitamento: Alegou que são músicas que não conseguiram se encaixar nos contextos de suas obras anteriores.

O argumento é bacana. Mas é papo furado. No fundo sabemos que não há muita diferença entre músicas que não se encaixaram e restolhos de estúdio.
“Tecnicamente falando, o entulho é considerado um material de construção que não se encaixou na sua reforma. Nem por isso você guarda a caçamba na sua sala, esperando um dia reutilizar o material.”
É dessa reciclagem que nasce o nome (esquisito) do álbum, . É como se o trabalho ficasse posicionado como um complemento do quarto disco da carreira solo do britânico, Hand. Cannot. Erase. Não chega a ser um quinto álbum.

SÍNDROME DE RADIOHEAD

Dá até dor no coração colocar Radiohead e Steven Wilson na mesma frase. Mas preciso ser justo. Pelo menos estou criando polêmica.
Critiquei muito o A Moon Shaped Pool pela falta de material inédito e regravações de músicas já conhecidas pelo público. O Steven Wilson foi na onda dos seus conterrâneos e fez o mesmo.
Espero que isso não seja um problema generalizado na Inglaterra. Se souberem de mais um caso, vamos acionar a OMS (Organização Mundial da Saúde).
Risco potencial de superar Ebola e Zika. Previna-se.

Você pode achar que estou exagerando.
Sim. Estou.
Sou exagerado mesmo. Em contrapartida, te apresento um ponto de vista minimamente razoável. Qual é o principal ponto forte da obra do Steven Wilson?

Se você respondeu profundidade, acertou. O cara sempre primou por trabalhos extremamente profundos e detalhados. Pegue o Hand. Cannot. Erase. como exemplo: A obra é completa, interage com outras mídias, tem blog, vídeos, documentários.
Tudo isso cria uma atmosfera favorável.

Agora pegue o : É raso. Cai na vala comum do rock progressivo.

AINDA É O CARA

O mais impressionante de tudo é que, apesar de possuir apenas o bagaço da laranja, tem músicas ótimas.
Ou seja, o lixo do cidadão é melhor do que a primeira linha de muita banda por aí. Isso prova que Steven Wilson ainda é o cara.

My Book of Regrets exemplifica isso. É uma música que abre muito bem o disco e faz você se perguntar, por que diabos ela não foi colocada no Hand. Cannot. Erase.?
Entretanto quero deixar um ponto em aberto aqui. Essa é uma faixa preocupante. Ela sinaliza o retorno de uma outra síndrome, a síndrome do shopping.
Seria esse um complemento à síndrome de Radiohead? Não, caro leitor. Ainda falarei dessa outra síndrome em uma ocasião mais apropriada. Apenas tenha em mente que ela começou em 2007, no Porcupine Tree.

Após a ponte instrumental de Year of the Plague, Happiness III, diferentemente de My Book of Regrets, deixa claro os motivos de ter sido descartada.
A música é legal, mas nitidamente fica fora do contexto emocional imprimido em Hand. Cannot. Erase. A atmosfera é alegre demais, e não combina com a letra.

Novamente temos um período instrumental. Sunday Rain Sets In é mediana e Vermillioncore é boa. A bateria apresenta quebras ao longo de toda melodia, o baixo é marcante, e há uma grande influência eletrônica.
Steven Wilson pensando como seria o Porcupine Tree com Ninet Tayeb.

É difícil escolher um único destaque em Hand. Cannot. Erase., e se fosse para fazer uma lista dos bons pontos, Ninet Tayeb seria um deles, sem sombra de dúvidas.
Steven Wilson também deve ter achado o mesmo, tanto que resolveu repetir a dose.

DE NOVO MAIS UMA VEZ

finaliza sem criatividade. Don’t Hate Me é uma regravação. A faixa original é de sua época no Porcupine Tree, gravada em 1999, no álbum Stupid Dream.
O diferencial ficou por conta da bela voz de Ninet Tayeb.

O problema aqui é o velho ponto das regravações. Não oferece nada de novo.
É muito fácil pegar uma música antiga e não alterar nada (existem pequenas mudanças de andamento e equalização, irrelevantes).
Digo mais: Além de fácil, é um baita de um desperdício. Poderia ter sido feito um trabalho muito mais completo que complementasse a versão anterior.

A música fica melhor que a original? Fica.
Isso quer dizer alguma coisa? Não.

Se você pegar a voz de qualquer cantor de alto nível e pedir para ele regravar Bob Dylan, te garanto que as músicas ficariam sensacionais. Só que nunca teriam o impacto das originais.
Aqui, salvo devidas proporções, vale a mesma lógica. Há uma melhora, mas o impacto é zero. Prefiro ficar com a original e seu contexto.

O NOME É A NOTA

Se eu tivesse que dar uma nota de zero a dez para esse álbum, quatro e meio seria um valor justo.
Curiosamente esse é o nome que o Stevão deu pra ele.

Coincidência? Ou auto-conhecimento?

I'm tired of burning up the time at my PC. I only end up downloading the same old pornography; the same old scene.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Steven Wilson
Ano: 2016
Álbum:
Gênero: Rock Progressivo
País: Inglaterra
Integrantes: Adam Holzman (teclado e piano), Chad Wackerman (bateria), Craig Blundell (bateria), Dave Kilminster (guitarra), Guthrie Govan (guitarra), Marco Minnemann (bateria), Ninet Tayeb (vocal), Nick Beggs (baixo), Steven Wilson (vocal, teclado, mellotron, guitarra e baixo), Theo Travis (flauta).

MÚSICAS:
1 - My Book of Regrets
2 - Year of the Plague
3 - Happiness III
4 - Sunday Rain Sets In
5 - Vermillioncore
6 - Don't Hate Me



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Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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