Vektor - Terminal Redux (2016): É tudo relativo.


Costumo considerar o thrash metal como um gênero relativamente restrito. São poucas as bandas que se destacaram nesse meio.
Posso provar isso para você com um teste bem simples.

THE BIG FOUR FIVE

Diga cinco vezes, sem pausas, thrash metal. E agora, responda em voz alta: Qual a primeira banda do gênero que aparece na sua cabeça?

Slayer, Metallica, Anthrax, Megadeth ou Exodus. Sua resposta deve ter sido uma dessas cinco, não?
Se por acaso não foi uma dessas, ou você gaguejou enquanto repetia thrash metal cinco vezes, ou você não respondeu em voz alta. O teste só é preciso se o procedimento for cumprido na íntegra.

Por isso digo que o thrash é relativamente restrito. Por mais que existam boas bandas por aí, elas não conseguem atingir a capilaridade do big four five americano. Aqui no Brasil a cena é praticamente uma bolha.
“Ah, mimimi, o certo é big four... Se você pensa assim, peço, por gentileza, que coloque Bonded by Blood no seu rádio e o ouça por 17 horas consecutivas. Isso fará você ficar mais esperto.”
Dois erros nessa imagem. A ausência do Exodus e Mustaine atrás de Hetfield.

NOVAS CARAS

Dentre as novas e quase ocultas caras do thrash metal, talvez o Vektor seja a mais interessante de todas.

Em Terminal Redux o quarteto americano mantém a mesma linha dos trabalhos anteriores: Ficção científica e uma pegada extremamente técnica.
Sim, cinco anos após o Outer Isolation (2011), o Vektor retorna com um longo, muito bem elaborado, e extremamente denso trabalho conceitual.

Os riffs são insanamente rápidos e de estrutura muito complexa, quase todo o álbum é cantado de forma gutural, as faixas são longas, com 7, 8, 9 e até 13 minutos, e existem poucos momentos brandos.

Ou seja, não espere um som fácil de digerir. Muito pelo contrário, se você não gosta dos elementos acima, muito provavelmente Terminal Redux não é para você.

FÍSICA AVANÇADA

Eu mesmo tenho certa repulsa por vocais vomitados e músicas exageradamente longas. Esse seria um bom motivo para eu passar longe do Vektor. Mas, nem tudo é absoluto. Os norte-americanos apresentam um componente que muito me agrada: Conteúdo.

De longe, o ponto mais forte de Terminal Redux é a sua história. Mais precisamente os detalhes dela.
O conceito, em si, é meio banal. Trata-se da história de um militar que é enviado ao espaço para realizar um experimento sobre como o ser humano se comportaria em uma situação de isolamento extremo.

Ele sai da constelação de Cygnus e após um tempo isolado, fica aparentemente louco. Então ele altera a rota de sua nave e cruza a região do Great Rift (uma sobreposição de várias nuvens de poeira). Nessa região ele presencia a explosão de uma estrela, a Alschain.
Durante essa explosão ele descobre uma partícula jamais vista, a Enocules (uma brincadeira em inglês com o verbo inocular). Essa partícula tem o poder de controlar o tempo, e torná-lo imortal.

Imortal e todo putão, o protagonista resolve voltar para Cygnus. O restante da história é conquista e tirania.
Essa é a constelação de Cygnus. Astrônomos chapados dizem que tem um cisne aí.

Nada de surpreendente nessa história? Pode até ser.
Só que eu, como um admirador e estudante amador de física, me surpreendi com as referências utilizadas.

Todos os astros e estrelas citados são reais, assim como algumas propriedades físicas. Isso mostra que a banda, no mínimo, deu uma boa estudada no tema antes de escrever qualquer porcaria.

Por exemplo, logo na primeira linha de Charging the Void, DiSanto canta “Explodindo adiante através de um céu filamentoso”. Essa frase não faz muito sentido. Que diabos seria um céu filamentoso?
Na ótica da mecânica clássica, isso não existe. Entretanto, Einstein nos mostrou que quando chegamos perto da velocidade da luz distorcemos o espaço. Esse tal céu filamentoso não é um delírio. É o protagonista viajando tão rápido que o céu está se curvando à sua frente.

Esses pequenos truques estão presentes ao longo de todo o trabalho. Em Cygnus Terminal, quando é dito “Parti por 13 anos e só envelheci 2”, nada mais é do que uma outra referência à relatividade do tempo.

CONSTRUÇÕES AMBICIOSAS

Nas letras eles foram cuidadosos, e pode-se dizer o mesmo da estrutura musical. Terminal Redux possui estruturas capazes de deixar muitos proggers com inveja. Se existisse um gênero chamado thrash metal progressivo, esse seria um bom exemplo.

De certo modo essa ambição e nível de detalhes tem seu lado negativo. O álbum atinge uma densidade tão grande que ouvi-lo ao longo de seus quase oitenta minutos é bastante desgastante.
Sinto falta de uma pegada mais crua e ingênua. Collapse é um bom ponto. Ela mostra como a simplicidade tem sua virtude. A levada suave e de voz mais melódica soa como um ponto de repouso no meio da guerra.

RELATIVAMENTE TUDO ISSO?

O álbum está sendo consagrado pela crítica e apontado por muitos como um dos melhores do ano (e o ano nem acabou).
É para tudo isso?

Sabemos que gosto é relativo, assim como o tempo e o espaço. Só que aqui você não vai me ver em cima do muro, então segue a resposta: Não é para tudo isso.

É bom. Ponto e basta.

I crossed the Great Divide. I now have command over time. It’s futile to object; now grant my parole from the Isolation Project.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Vektor
Ano: 2016
Álbum: Terminal Redux
Gênero: Thrash Metal
País: Estados Unidos
Integrantes: Blake Anderson (bateria), David DiSanto (vocal e guitarra), Erik Nelson (guitarra), Frank Chin (baixo).

MÚSICAS:
1 - Charging the Void
2 - Cygnus Terminal
3 - LCD (Liquid Crystal Disease)
4 - Mountains Above the Sun
5 - Ultimate Artificer
6 - Pteropticon
7 - Psychotropia
8 - Pillars of Sand
9 - Collapse
10 - Recharging the Void



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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