Genoma do Rock - Blues: O começo é negro...


Você sabe o que significa andar sozinho? Você sabe o que significa chorar sozinho? Você sabe o que significa chorar por você? Se você sabe, então você sabe o significado do blues.

Tirei essas frases de uma música do Joe Bonamassa, pois elas são uma ótima síntese desse gênero, que, sem exagero nenhum, pode ser considerado a espinha dorsal do rock, o princípio e o meio.

E, se foi com o blues que tudo começou, qual foi o princípio do princípio? Como nasceu esse gênero e por que ele é tão importante?

O ALGODÃO É BRANCO

Primeiro teremos que viajar para o sul dos Estados Unidos, nos idos de 1900. Não vou me aprofundar na história, porque esse não é o objetivo principal do blog, mas ela é importante para entendermos as motivações e o sentido do blues.

O sul era uma região que tinha abolido a escravidão há pouquíssimo tempo. O racismo era dominante e obviamente não havia nenhum tipo de política pública que permitisse a reintegração dos negros à sociedade, após anos de exploração.
Por isso, os negros continuavam trabalhando como se fossem escravos: Ganhavam uma miséria que não valia nada, eram oprimidos, desprezados, e marginalizados.

Passavam o dia trabalhando em plantações de algodão, muito comuns nos estados do sul. O trabalho estafante só era interrompido de noite, quando eles se reuniam em casas (geralmente senzalas abandonadas) para beber, conversar, dançar, cantar, jogar...

Essas casas eram chamadas de “juke joints”, e eram os únicos lugares que eles podiam fazer esse tipo de atividade, até porque eram proibidos de entrar na maioria dos estabelecimentos.
Juke Joints, "inferninhos" regados de blues, álcool e jogos.

Influenciados por canções típicas africanas e cantos tradicionais religiosos, os negros começam a criar uma música própria ao misturar os elementos citados com fortes doses de melancolia e álcool.
Soma-se o fato de tudo isso soar extremamente simples, afinal eles não tiveram nenhum tipo de educação formal em música e um violão com seis cordas já era um grande luxo.

A MELANCOLIA É AZUL

Por todo esse cenário social e cultural, a estrutura tradicional do blues nasce muito bem definida: Voz, violão, e uma progressão de escalas fixa. Outra peculiaridade é o formato “call and response” (chamada e resposta), em que há uma espécie de diálogo, com a segunda frase do verso fazendo um comentário ou respondendo a primeira.

As letras refletem tudo o que os negros sentiam na época, narrando adversidades, problemas pessoais, azar (o jogo era uma grande válvula de escape nos juke joints), bebidas, frustração, perdas, saudades... O blues é extremamente visceral e triste.
“Não havia motivo para comemorações, e o blues com todo seu peso e arrasto toca direto na alma.”

A MÚSICA É INCOLOR

Com o passar do tempo, na década de 20, o blues se divide um pouco e regiões específicas acabam criando variantes do gênero. Mas, mais importante do que isso, é que o blues consegue vencer a barreira racial e passa a se tornar popular nos Estados Unidos, sendo ouvido, e até tocado, por brancos.
Negros e brancos juntos tocando blues. Uma cena impensável por muito tempo.

Os principais responsáveis por essa popularização do blues nos anos 20 são nomes como W. C. Handy, Mamie Smith, Ma Rainey, e, meu favorito, Blind Willie Johnson, cuja história de vida talvez seja a própria definição do blues.

Quando Blind Willie tinha cinco anos de idade ganhou sua primeira guitarra, do seu pai, feita a partir de caixas de cigarro. Dois anos depois, seu pai espancou sua esposa (madrasta de Willie) após descobrir que ela era infiel.
A mulher, como retaliação, jogou soda cáustica nos olhos do garoto. Se um homem negro já tinha pouquíssimas opções naquela época, o que falar de um homem negro cego?

Infelizmente a indústria fonográfica não salvou muitos registros dos anos 30 e 40, e pouco restou desses materiais.

Falando de artistas mais recentes (pós 1950), temos como grande exemplo do blues tradicional os nomes de Son House (Father of Folk Blues, 1965), Muddy Waters (Folk Singer, 1964), Skip James (Today!, 1966), John Lee Hooker (That’s My Story, 1960) e Buddy Guy (Blues Singer, 2003).
Óbvio que estão faltando caras de extrema relevância, mas tentei me limitar a cinco exemplos para a lista não ficar interminável e cansativa.

O BLUES É TRISTEZA

Bem, agora você já sabe qual foi o princípio do princípio e porque o blues é tão triste. Um som negro de origem e negro de alma.

Faltou eu responder por que o blues é tão importante e considerado a espinha dorsal do rock. Essa pergunta será respondida à medida que o projeto Genoma do Rock for avançando.

Então fica o convite para você navegar pela página do projeto e aproveite para conferir o vídeo abaixo, um resumo coletânea do blues que tanto falei ao longo desse texto.
Afinal, de que adianta eu falar tanto e não mostrar nada?


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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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