Alabama 3 - Blues (2016): Pegadinha do Malandro.


Tudo parece previsível por aqui, por uma simples questão de semiótica. É elementar, meu caro Watson... Basta ligar os pontos.

O nome da banda é Alabama 3. Alabama é um dos berços do blues, e o número três depois do nome dá a entender que teremos um trio conduzindo a bagaça.
A ideia de blues fica ainda mais reforçada porque é assim que o álbum se intitula. Uma capa azul e o nome Blues deixam claro, teremos um blues bem tradicional pela frente.

PEGADINHA

Vou estragar a surpresa e te informar logo de cara, é pegadinha do Malandro. O Alabama 3 não é nada do que parece ser.
Para começar, eles não são de Alabama. Sequer são norte-americanos. A banda fica do outro lado do Atlântico, na terra da rainha Elisabeth II.

Até aí, isso não diz muita coisa. Os caras podem ser vidrados em blues e por isso usam essas referências.
Só que tem mais.

O número três no nome não faz nenhum tipo de indicação ao número de integrantes. Na verdade o grupo é formado por oito músicos.

Por fim, como você já deve estar suspeitando nessa altura do campeonato, Blues não tem blues.

Há! Pegadinha!!! Ie-íé glu-glu!
Blues tem blues sim!
O Malandro te pegou!

O ponto é que o blues é só um detalhe. O Alabama 3 é muito mais do que isso. Os caras fazem uma mistura insana de diversos gêneros. Quando eu digo que é insana, não estou exagerando. Eles vão do gospel ao eletrônico, passando pelo blues e o country.
“Alabama 3 é uma banda pop rock, punk rock, blues, e eletro-techno country situacionista cripto-marxista-leninista. E não sou eu quem está dizendo essa doidêra. Essa é a autodescrição da banda no site oficial.”

EU ESCAPEI

Eu não caí nessa pegadinha por ser um velho fã do A3. Conheci os caras como 99% dos outros fãs, com o hit Woke Up This Morning. A música bombou quando virou tema da série Os Sopranos.
Eu não assistia a série, só que graças aos mágicos algoritmos do Google, recebi a indicação dessa música pelo Youtube.

Apesar de ter surgido muito bem no fim dos anos noventa e no começo do milênio, com trabalhos como Exile on Coldharbour Lane (1997) e La Peste (2000), o Alabama 3 foi perdendo força e relevância ao longo dos anos.

Isso se deve a uma dificuldade dos ingleses em se reinventarem dentro do próprio conceito que eles inventaram. É estranho, mas é por aí.
Os álbuns recentes até tentaram novos caminhos. Largaram o blues e foram ligeiramente direcionados para outros estilos como o hip-hop. Mas a recepção não foi lá das melhores.

Sob esse ponto de vista, Blues é um retorno à sonoridade inicial. Se eu escapei da pegadinha do Blues, por já conhecer bem o Alabama 3, os caras parecem não querer ou conseguir escapar do próprio conceito criado no fim dos 90. Blues não tem muitas novidades.
Só para deixar claro, o fato de Blues soar sem novidades não é demérito ou mérito. É apenas uma constatação de que o conjunto traçou uma identidade muito clara e se mantém dentro dela.

AQUI É POLÊMICA

As ironias, acidez e humor são outra marca registrada do A3, e Blues não decepciona nesse quesito. Os caras também não fazem nenhuma questão de traçarem o caminho do politicamente correto.

Logo de cara, com (I'll Never Be) Satisfied e seu refrão claramente referenciando Satisfaction, dos The Rolling Stones, o cantor Larry Love assume a responsabilidade pela morte de diversos astros do rock.
O que começa como uma leve piada (“Todos sabem que eu matei Brian Jones”) ganha um tom mórbido e de humor negro quando são citadas mortes mais recentes, como a de Lemmy e David Bowie.

Exodus (Movement of War People) é outra referência. Dessa vez é ao Bob Marley e sua histórica música Exodus. Na letra, há uma forte ironia aos movimentos como o “Je suis Charlie” ou “Je suis Paris”, que mostravam apoio à França após atentados terroristas.
O Alabama 3 fala em “Je suis immigrant” e “Je suis refugee”, expondo as feridas da atual crise migratória que vivemos, parte dela causada pela própria Europa.
A França não é vítima e a Síria não é o vilão.
Refugiados: Ninguém estará livre até que todos estejam livres.

O desastre de Aberfan, o colapso de uma mina de carvão que matou 116 crianças e 28 adultos, em 1966, é lembrado em Nothing to Lose But Your Chains: “Você nunca sabe quando o senhor de cima se esquece de enviar seus anjos para baixo”.

Jonestown Blues é outra música que brinca com fogo, ao emular o discurso de Jim Jones, fundador do culto Templo dos Povos, e responsável pelo assassinato em massa de 918 dos seus seguidores em Jonestown. Ao coro de “Vocês nunca encontraram ninguém/ Ninguém como eu”, Jim Jones tenta se justificar.

UM BOM RETORNO

A falta de novidades me decepcionou um pouco, confesso. Apesar de já estar conformado de que o Alabama 3 jamais conseguirá repetir o impacto que causou no seu primeiro álbum, sempre fica aquele fio de esperança.

Mas minha decepção não significa que o álbum é ruim. Blues passa longe da genialidade, claro, entretanto é capaz de entregar o que o A3 promete. São 40 minutos de curtição e boa música.

Have you seen the vigilante man? He’s coming after you.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Alabama 3
Ano: 2016
Álbum: Blues
Gênero: Blues Rock / Dance Alternativo
País: Inglaterra
Integrantes: Harpo Strangelove (vocal e gaita), L. B. Dope (bateria), Larry Love (vocal), Rock Freebase (guitarra), Steve Finnerty (guitarra), The Reverend D. Wayne Love (vocal), The Spirit of Love (teclado), Wizard (efeitos).

MÚSICAS:
1 - (I'll Never Be) Satisfied
2 - Exodus (Movement of War People)
3 - Rattlesnake Woman
4 - Nothing to Lose But Your Chains
5 - Forever in Blues
6 - Vigilante Man
7 - Lost and Found
8 - Jonestown Blues
9 - Rising Tide
10 - Turn the Jukebox On



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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