Seven Impale - Contrapasso (2016): Jazz peso pesado.


Atrasei. Pontualidade não é o meu forte, reconheço. E o maior prejudicado por isso sou eu mesmo.
Se eu não tivesse me atrasado tanto, teria conhecido o Seven Impale em 2014, quando eles lançaram o interessantíssimo City of the Sun.

Só que eu perdi o bonde e fui ouvi-los apenas no meio do ano passado.
Como todo procrastinador que se preze, repeti o erro, e agora cá estou eu, atrasado mais uma vez, ouvindo Contrapasso, lançado em setembro de 2016.

O RETORNO É SEMPRE BOM

Por mais que o cara diga em sua resenha que o álbum é bom e blá blá blá, a maior prova de que uma nova banda realmente valeu a pena ter sido conhecida, é quando alguns anos depois você está ouvindo-os novamente, em um outro lançamento.
Isso significa, no mínimo, que a banda instigou algo em você.

E é exatamente esse o caso aqui, Fiz questão de ouvir Contrapasso, porque o Seven Impale realmente me surpreendeu com o City of the Sun.
“Bandas são como restaurantes. Se aquele seu amigo disser: Ah, é saboroso, mas eu não comeria lá novamente... Fuja para as colinas. É a mesma coisa com a música. Se o cara disser: Tal álbum foi bom, mas não me animei de ouvir esse novo... Fuja!”

A EXPECTATIVA NEM SEMPRE É BOA

O retorno é sempre bom, e a expectativa é sempre perigosa.

Eu fui atrás do Contrapasso completamente entupido de expectativas... Na minha cabeça se passavam milhares de perguntas.

Será que os noruegueses iriam conseguir repetir aquele caos frenético e organizado? O jazz ainda seria um grande elemento? Teria sido tudo apenas um golpe de sorte, como eles haviam dito?
O paradoxo da expectativa.

COMPARAÇÕES

Bem, as comparações podem até ser injustas, mas são inevitáveis. Contrapasso começa exatamente como termina o City of the Sun. A abertura de Lemma repete o final de God Left Us for a Black-Dressed Woman.
Apesar dessa semelhança, ela é a única. O andamento é completamente diferente.

O Seven Impale adota um tom quase gregoriano, que choca bastante. O vocal em barítono e os sons caóticos ao fundo desenvolvem um clima cavernoso. É uma proposta assustadora e completamente diferente do álbum anterior.

As comparações deixam de ser inevitáveis para virarem impossíveis. O sexteto se reinventa dentro da própria invenção louca que criaram anos atrás.

O IMPROVISO E O EXAGERO

O fato de eles terem se reinventado não exclui a melhor característica deles: O jazz. Dentre as inúmeras camadas sonoras, o jazz sempre está presente, ou pelo menos circulando as construções.

Tudo tem uma cara de improviso e a impressão é de que se o conjunto tentasse gravar esse álbum novamente, sairia algo completamente diferente.
Pode ser isso, ou pode ser tudo muito bem ensaiado. Não sei dizer. Só sei que deu certo.

Conscientemente ou não, eles arriscam.
O ponto é que arriscar tanto é perigoso. E algumas arestas ficam mal aparadas.
Inertia usa uma voz exageradamente distorcida, que soa cansativa. O instrumental não contribui para ser o contraponto e trazer alívio. Pelo contrário, os instrumentos também são excessivamente densos e caóticos, causando mais desconforto.

O mesmo exagero sonoro se repete em situações pontuais, como trechos de Serpentstone e Convulsion. Ainda assim são duas boas faixas...

PESO PESADO

A grande virtude do Seven Impale é a capacidade de criar ambientes fantásticos. Só que diferentemente do álbum de estreia, Contrapasso é muito mais pesado em termos de atmosfera. E nesse quesito eu vou destacar três faixas.

A primeira é Helix. Temos vocais fazendo um coro tenebroso e frases instrumentais elevando a atmosfera de terror ao máximo.
Critiquei muito o álbum do Ingranaggi della Valle (Warm Spaced Blue, 2016), justamente porque eles falham miseravelmente na proposta de criar um ambiente aterrorizante.
Bem, Helix é uma verdadeira aula de como fazer isso.

O segundo destaque fica com minha música favorita, Languor. As guitarras criam um peso e caos absurdo, quebrando todos os tempos possíveis, mas que são cirurgicamente consertados com passagens de sax e piano, criando um contraste de leveza impressionante.

E o último grande momento é Phoenix. O início é uma cozinha funkeada, que certamente irritará os mais ansiosos. A levada flui sendo preenchida por tiradas ao fundo (Encontre/ Encontre o que?/ Eu sei lá, qualquer coisa, uma razão/ Ou algum significado/ Ah, foda-se).
Se após 4 minutos você não desistir da cozinha, será envolvido por uma onda space-psicodélica-progressiva, e provavelmente se encontrará em outra dimensão.
Te encontro lá.

MUITO PODEROSO

Poderoso. Essa é a definição perfeita para esse trabalho do Seven Impale.
O problema é que nem sempre é fácil lidar com tanto poder. E por isso, há partes de Contrapasso que são indigeríveis. O pecado da gula fez com que a banda exagerasse em passagens e na própria extensão do álbum.

Entretanto, apesar da falta de capacidade de síntese, o saldo é muito mais positivo do que negativo. Contrapasso é uma viagem que, apesar de longa e esburacada, é bastante divertida e te oferecerá as paisagens mais insanas que você possa imaginar.

A reason to believe is a reason to not. When this is your last shot.

----------------------------------------

FICHA TÉCNICA:
Artista: Seven Impale
Ano: 2016
Álbum: Contrapasso
Gênero: Rock Progressivo
País: Noruega
Integrantes: Benjamin Mekki Widerøe (saxofone), Erlend Vottvik Olsen (guitarra), Fredrik Mekki Widerøe (bateria), Håkon Vinje- Orgel (teclado), Stian Økland (vocal e guitarra), Tormod Fosso (baixo).

MÚSICAS:
1 - Lemma
2 - Heresy
3 - Inertia
4 - Languor
5 - Ascension
6 - Convulsion
7 - Helix
8 - Serpentstone
9 - Phoenix



----------------------------------------

<< (2014) City of the Sun N/D >>
Quem usa o Google Plus?

Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

0 comentários :

Postar um comentário