Ingranaggi della Valle - Warm Spaced Blue (2016): Expectativas.


O que eu vou falar agora pode ser algo completamente sem sentido se analisado semanticamente. Mas tenho certeza que fará todo o sentido dentro da cabeça dos proggers mais aficionados.

Uma coisa é você ser uma banda de rock progressivo italiano. Outra coisa é você ser uma banda italiana de rock progressivo.

NÃO É MAIS

O Ingranaggi della Valle, quando lançou seu primeiro álbum, o In hoc signo (2013), tocava rock progressivo italiano.
Todas as influências claras do gênero estavam presentes. Desde o drama idiomático até um ar mais sinfônico e clássico.

Warm Spaced Blue não é mais nessa pegada. Agora eles são um grupo italiano de rock progressivo. Até o idioma foi abandonado e hoje os romanos cantam em inglês (quando cantam).
O som é muito mais moderno, bastante complexo, e cheio de dissonâncias.

Talvez algumas mudanças na formação expliquem essa nova cara do Ingranaggi della Valle. Igor Leone vazou e deu lugar ao vocalista Davide Savarese. Além disso chegou um cara para trabalhar mais os sons eletrônicos (Alessandro Di Sciullo), e Antonio Coronato se apresentou para o baixo.

Essa mudança sonora foi a primeira expectativa quebrada. Eu esperava uma continuação do primeiro álbum.
Só para deixar claro: Isso não é um problema. Apenas um fato.

UMA PITADA DE TERROR

Das seis faixas anunciadas no disco, três delas levam o nome de Cthulhu. Se você não conhece essa simpática figura, corra para uma biblioteca e leia o primeiro livro de terror que encontrar.

É um personagem clássico (mais para uma entidade). Foi criado pelo escritor H. P. Lovecraft em 1926.
Muito prazer, meu nome é Cthulhu.

A frustração acontece já nos primeiros acordes. Eu esperava uma atmosfera densa e pesada. Afinal, não estamos falando dos Ursinhos Carinhosos, estamos falando do monstrão Cthulhu. O suprassumo do terror. Mais assustador do que imposto de renda.
Só que ouvimos apenas sons suaves, arrastados, e incapazes de gerar suspense. É tudo muito alegre e incoerente com o título.
“Fazer um álbum com uma trilogia chamada Call of Cthulhu é criar uma enorme expectativa de um cenário aterrorizante e místico. Quebrar isso é nonsense. É como anunciar para uma criança que ela vai para a Disney, e levá-la ao dentista.”
Essa falta de terror foi a segunda expectativa quebrada. Eu esperava um álbum muito mais denso e tenebroso. Uma trilha sonora digna de suspense.
Só para deixar claro: Isso não é apenas um fato. É um problema.

A ARTE PELA ARTE

Talvez eu não tenha uma cabeça prog o suficiente para digerir esse disco. Não estou aqui para ser o dono da verdade. É uma frase clichê de final de relacionamento, mas se encaixa bem aqui: Muito provavelmente o problema sou eu.

Entretanto, vejo o Warm Spaced Blue como uma clara demonstração do que mais me incomoda dentro da música (principalmente progressiva). É a arte pela arte, sem objetivo nenhum.
Loops gigantes de muita virtuosidade, aonde é inquestionável a habilidade técnica dos músicos e ao mesmo tempo não se transmite nenhuma mensagem.

Essa falta de conteúdo foi a terceira expectativa quebrada. Eu esperava algo muito mais palpável. Ainda mais quando se tem músicas cheias de referências no título, como Lada Niva (um clássico carro russo) ou Ayida Wedo (uma criatura meio serpente da mitologia haitiana).
Só para deixar claro: Isso pode não ser um problema. É questão de gosto.

MUITAS QUEBRAS

Muitas quebras de expectativas podem ser algo extremamente positivo. Não foi o caso aqui. O melhor momento é Lada Niva, só que nada excepcional, é apenas interessante e não mais do que isso.

Não sei dizer se o álbum não conseguiu atingir a atmosfera necessária dentro da temática proposta, ou se não conseguiu atingir a temática necessária dentro da atmosfera proposta.
Só sei que algo se quebrou no meio do caminho. E não foi a semântica.

Do you remember when I used to dream?

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Ingranaggi della Valle
Ano: 2016
Álbum: Warm Spaced Blue
Gênero: Rock Progressivo
País: Itália
Integrantes: Alessandro Di Sciullo (mellotron e guitarra), Antonio Coronato (baixo), Davide Savarese (vocal), Flavio Gonnellini (guitarra), Marco Gennarini (violino), Mattia Liberati (teclado), Shanti Colucci (bateria).

MÚSICAS:
1 - Call For Cthulhu: Orison
2 - Inntal
3 - Call For Cthulhu: Through the Stars
4 - Lada Niva
5 - Ayida Wedo
6 - Call For Cthulhu: Promise



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

1 comentários :

  1. Fiquei empolgado quando vi a menção do Cthulhu (sou um recente e iniciante ávido pesquisador da obra de Lovecraft), mas ao fim da resenha, acho que vou passar esse ai. Definitivamente a associação com Lovecraft SEMPRE gera expectativa com algo obscuro, denso, insinuador, misterioso. Nenhuma felicidade cabe aí.

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