Empire of the Clouds: A trágica história do R101...


"R100 me deu prazer. O R101, espero, vai me dar diversão. Passear por tempestades sempre foi minha ambição, e espero que possamos realizá-la no caminho para a Índia – mas sem riscos indevidos." (Lord Thomson)

Empire of the Clouds, última faixa do disco The Book of Souls, lançado em 2015 pelo Iron Maiden, pôde se destacar por vários motivos. É totalmente composta pelo Bruce Dickinson, coisa rara no conjunto inglês, que geralmente concentra as composições com Steve Harris. Além disso, é a primeira música do conjunto a usar piano na sua base, deixando as guitarras em segundo plano. Por fim, bate o recorde de música mais longa da discografia deles: São dezoito minutos de música!
Mas além de marcas e curiosidades tolas, o que há de tão especial por traz desses dezoito minutos?

A história da aviação sempre foi uma grande paixão de Bruce Dickinson, e isso não é segredo para ninguém. Algumas batalhas aéreas já foram cantadas na discografia do Iron Maiden. Empire of the Clouds, apesar de estar relacionada à aviação, tem uma abordagem totalmente inédita. Ao invés de narrar glórias e conquistas aéreas, Empire of the Clouds é o oposto. É sobre ambição e fracasso.

Toda a composição gira em torno da história do R101, um dos dois dirigíveis desenvolvidos pela aeronáutica britânica em 1929, com o principal objetivo de conseguir fazer grandes rotas aéreas. Ao todo ele tinha 223 metros de comprimento e era o maior dirigível da época.
Em 1930, após alguns voos de testes e modificações no projeto original, o R101 decolou rumo à Índia para sua primeira viagem oficial. Não chegou lá. Ele caiu na França e matou 48 pessoas, entre elas Lord Thomson: Ministro da aviação e idealizador do projeto.
O gigante dos céus, o fantasma prateado.

IMPÉRIO DAS NUVENS
Passear por tempestades, até um império das nuvens
Passear por tempestades, eles embarcaram em seu fantasma prateado
Passear por tempestades, até um reino que virá
Passear por tempestades, que se dane o resto, vista grossa

O começo já é bastante emblemático. A frase "passear por tempestades" não é insistentemente repetida ao acaso. Foi a mesma frase utilizada pelo ministro Lord Thomson, em uma carta de amor à sua esposa, cerca de um mês antes do acidente. Nessa carta ele falava sobre a expectativa de voar no R101. A frase completa está no começo dessa postagem.
O final da estrofe já é um adiantamento da história por trás da tragédia. Vista grossa e muita negligência durante a execução do projeto.

Realeza e personalidades, conhaque e charutos
Relacionam-se com o gigante dos céus, o seguram em seu braços
Uma chance em um milhão, eles riram, para derrubar a majestade
Para a Índia, diziam, o tapete mágico flutuará, em algum dia de outubro

A menção à realeza deixa explícita a relação da família real com o desenvolvimento do dirigível. E quando questionados sobre a chance de fracasso do R101, a resposta era clara: Uma em um milhão.
As chances de Golias perder a batalha eram de uma em um milhão.

Neblina lá nas árvores, pedras úmidas pelo sereno
O sol da manhã se ergue, o vermelho antes do azul
Mastro pendurado, à espera do comando
O dirigível da majestade, o R101
Ela é a maior nave já feita pelo homem, a gigante dos céus
E para todos os céticos, o Titanic cabe lá dentro
Tambor fortemente enrolado, pele de lona, prateada sob o sol
Nunca testado pela fúria, um desafio ainda pendente
Uma fúria ainda pendente

Essa sequência de versos já começa a dar mais pistas do cenário. O dirigível é finalizado e apresentado. O seu tamanho é bastante exaltado, e a comparação com o Titanic é uma amostra dos exageros causados pela pressão e expectativa desmedida... O Titanic não cabia dentro, ele era 46 metros maior.

A parte mais importante desse trecho é a observação com relação aos testes realizados. Quando Bruce canta "nunca testado pela fúria", ele avisa que todos os voos de teste realizados foram em condições climáticas limpas e sem capacidade máxima de carga e velocidade.

Na penumbra uma tempestade se forma a oeste
O timoneiro olhava fixamente para a água que mergulhava
Devemos ir agora, pegar essa chance com muita fé
Devemos ir agora, pelo político que não pode se atrasar

Esse já é o momento de pré-decolagem do fatídico voo. Seria o primeiro voo a atravessar o continente. A ideia era ir até a Índia, com escala no Egito.
Estamos no dia quatro de outubro de 1930. As condições climáticas durante o período da manhã eram bastante favoráveis e a decolagem foi agendada. Ao longo da tarde a situação piorou, mas nada que o capitão considerasse preocupante.
O R101 foi o Titanic dos céus. A semelhança não são ficou só no tamanho.

A tripulação acordada por trinta horas, com força total
O navio está na sua espinha dorsal, cada fibra, cada polegada
Ela nunca voou em velocidade máxima, um teste nunca feito
E a sua frágil capa externa, será o seu Aquiles
Um Aquiles ainda pendente

Momentos antes da decolagem a tripulação é descrita: Bastante capacitados, dispostos e com amplo conhecimento do R101... O R101 está na palma da mão deles.

É feito um novo lembrete da falta de testes (eu não errei quando escrevi "ela", nesse verso Bruce se refere ao dirigível como sendo uma mulher) e pela primeira vez é citado o problema da capa externa. Aqui, notem a sutileza na ordem dos fatos. A fragilidade da capa é informada antes da decolagem, dando a entender que alguns já sabiam do problema.

De fato, no dia três de julho (cerca de um mês antes), o técnico McWade ignorou seu superior e escreveu diretamente ao diretor de inspeções aeronáuticas uma carta recomendando fortemente a não autorização do voo. O motivo alegado era a grande oscilação da estrutura, que fragilizava a capa.
Ainda antes disso, em janeiro, o inspetor Michael Rope detectou uma grande fragilidade na região superior da capa, causada pelo acúmulo de água. A solução foi reforçar a região com camadas extras de capa.

Marinheiros do céu, uma raça obstinada
Leais ao rei, e crença no dirigível
O motor começa a bater, o telégrafo faz barulho
Soltem os fios que nos prendem ao chão
Disse o timoneiro – Capitão, ela é pesada, não conseguirá voar
Disse o capitão – Dane-se a carga, sairemos hoje à noite
Multidão aplaudindo quando ela se ergueu a partir do mastro
Batizando todos com a água que lastreava frente e trás
Agora ela desliza para o nosso passado

Hora da decolagem!
O R101 está no céu, rumo ao seu final derradeiro. O diálogo entre capitão e timoneiro é fictício e remete às modificações estruturais no dirigível durante a fase de testes, como a remoção de cabines, elevadores, e substituição de janelas.

A água que batizou todos é uma referência ao acúmulo da mesma na capa do dirigível antes da decolagem (havia uma leve chuva). Quando o R101 começou a se movimentar essa água deslizou e caiu, molhando todos abaixo. Estima-se que três toneladas de água acumulada foram despejadas. Isso dá uma ideia da carga que a estrutura deveria suportar.

Mais uma sutileza nesse trecho... Dessa vez instrumental. A música interrompe a levada com piano, e guitarras tomam conta, indicando a formação do caos. Mas o mais brilhante é que essa transição se dá por meio de pancadas secas e sincronizadas de bateria, guitarra e baixo. Essas pancadas aparentemente sem significado são o sinal de SOS em código Morse.
Cartas e documentos alertando sobre os riscos foram emitidos, e ignorados.

Lutando contra o vento enquanto ele te desvia
Sentido os motores te empurrar mais e mais
Assistindo o Canal abaixo de você
Mais baixo, mais baixo, noite adentro
Luzes passam logo abaixo de você
O norte da França dorme em suas camas
A tempestade se enfurece em volta
Uma em um milhão, é o que ele diz

As condições pioram. O vento fica forte e empurra o dirigível, que não tem força nos motores para manter a rota original. A travessia do Canal da Mancha é conturbada e fica difícil manter a altitude. Os ventos cada vez mais fortes alteram significativamente a rota do gigante prateado e para corrigir a direção tiveram que passar por Beauvais Ridge, uma área conhecida pelas condições adversas e turbulências.
A citação "uma em um milhão" é relembrada nessa estrofe. Dessa vez, com certo sarcasmo.

O ceifador espera ao lado dela
Com sua foice para cortar até o osso
Pânico para tomar uma decisão
Homens experientes dormindo em seus túmulos

Nada mais pode ser feito. A queda é eminente e a morte já os aguarda.
Eis o que restou do R101, no norte da França.

A capa está rasgada e ela está se afogando
A chuva inunda todo o casco
Sangrando até a morte ela está caindo
O gás está vazando
Nós caímos rapazes – veio o choro, flecha mergulhando do céu
Três mil cavalos em silêncio enquanto o navio começa a morrer
As chamas guiam seu caminho, com máxima ignição
O império das nuvens é apenas cinzas no passado
Apenas cinzas, é o restante

O fim é melancólico e o instrumental acompanha esse clima. A capa do dirigível não suportou todo o peso e vento, e o R101 mergulhou no solo francês.
No total foram quarenta e oito mortes e oito sobreviventes. A frase "nós caímos rapazes", reproduzida na música, foi de fato pronunciada pelo capitão nos últimos momentos.

Aqui jazem seus sonhos, e permaneço sob o sol
No terreno em que a construíram, e os motores ligaram
Para a lua e para as estrelas, o que foi que nós fizemos?
Os sonhadores podem morrer, mas o sonho continua vivo
O sonho continua vivo, o sonho continua vivo
Agora é uma sombra na colina, o anjo do leste
Que o império das nuvens descanse em paz
E em uma igreja no interior, de cabeça para o mastro
Quarenta e oito almas que vieram a morrer na França

Todos os corpos foram enterrados com honras militares. A frase "de cabeça para o mastro" não é ao acaso. Os mortos ficaram com seus túmulos voltados ao local do mastro, no dia da decolagem.

E por fim, apesar de o sonho continuar vivo, todo o programa aeronáutico de desenvolvimento dos dirigíveis foi suspenso na Inglaterra. Vale salientar que, antes mesmo do acidente, ele já era duramente criticado por gerar um imenso gasto público e ter a utilidade bastante duvidosa.

Eis o R101. Narrado brilhantemente pelo Iron Maiden no disco The Book of Souls. Então que tal sentar no sofá, completar uma dose, e apreciar essa história como se deve?
Se antes a utilidade era questionável, hoje eles são essenciais.

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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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