The Doors - The Doors (1967): O lado escuro da lua.


Volte no tempo. Coloque-se em algum lugar dos Estados Unidos (que tal Califórnia?) no final dos anos 60.
Isso.
A partir de agora estamos em 1966.

A guerra do Vietnã é uma realidade muito próxima da nossa juventude.
Os homens estão no exército. Os pais ausentes.
Eles são a não referência de uma geração órfã.
Os mesmos jovens órfãos se alistam orgulhosamente para uma guerra que não é deles. Não é nossa. Muito menos sua.
Os menos patriotas tentam provar que estão inválidos. Sim, para alguns é melhor ser considerado inválido do que ir ao front. Não os culpo.

Por dentro a sociedade sangra. Levemente anestesiados. Sufocados pela propaganda de guerra. Uma geração com muito dinheiro, poucas conquistas.
O desconforto é eminente. Mas é maquiado e ninguém percebe isso.
Então, está tudo bem.

ABRA AS PORTAS DA PERCEPÇÃO

A arte reflete a vida. Na música, não há motivos para essa máxima ser diferente.

Ligo o rádio e tem um som vindo lá da Inglaterra. Garotos bem arrumados, de cabelo comportado, clima pop. Cantam confissões da adolescência: “Eu acho que vou ficar triste/ Eu acho que é hoje, sim/ A garota que está me deixando louco/ Está indo embora”...
É o fenômeno The Beatles... Nada mal.

Agora começou outra música...
É um garoto precoce e fanho, narrando músicas idealizadas, cheias de protestos filosóficos dadaístas: “Nenhum som vem das portas do Éden/ O soldado selvagem cola sua cabeça na areia/ E então reclama/ Para o caçador descalço que ficou surdo”.
Bob Dylan. Qual é a dele? Não consigo entender direito, mas é legal.

Está tudo bem, não? A vida vai tranquila. Nesse ano acho que escapei do exército e ainda não sei qual faculdade vou fazer.
Tudo bem.
Meu pai? Não o vejo faz tempo. Está na guerra. Vivo. Acho.
Disseram que tem uma droga nova chegando por aí. Não curti. Prefiro os ácidos. Uso pouco, só para me sentir bem.
Afinal, está tudo bem.

Os ácidos? Eles abrem as portas da percepção.
Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria como realmente é: infinito.

OS GAROTOS DA UCLA

Para mim pode estar tudo bem. Mas para Jim Morrison certamente não está. Hoje ele está com 20 e poucos anos, e tenta seguir carreira no cinema e na poesia.
Ele também conseguiu escapar do exército.
Na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), artes cênicas é o seu curso. Só que ele anda bem puto. Seu filme foi um fracasso completo. Ninguém entendeu nada.

Jim é filho de militar, e por isso viveu como um nômade de base em base. Nunca conseguiu criar laços com ninguém. Seus amigos eram quase como amostras grátis. Embalagens descartáveis. Produtos para apenas um uso.
Com sua família, ele nunca se deu bem. Faz tempo que não fala com seus pais. Apesar da criação dentro da classe média, ele abomina as ideias conservadoras de seu pai. Seja lá o que isso quer dizer.

Em uma volta por Venice Beach, Morrison encontrou Ray Manzarek.
Ray estudou com Jim na UCLA, e Ray toca teclado. Ray também escapou do exército.
Então Jim cantarolou um de seus poemas, Moonlight Drive: “Vamos nadar para a lua/ Vamos escalar a maré/ Penetrar na noite que/ A cidade dorme para esquecer”.
O poema termina com um afogamento.

Impressionado pela letra de Morrison, Manzarek sugeriu que os dois formem uma banda. O tecladista mexeu mais alguns pauzinhos. Entre idas e vindas, fechou o bonde com Robby Krieger na guitarra e John Densmore na bateria.

Eis o mais novo grupo de rock da Califórnia, o The Doors.
Os garotos da UCLA pegaram o nome "The Doors" do título de um livro de Aldous Huxley, As Portas da Percepção. Aldous Huxley, por sua vez, pegou o nome As Portas da Percepção de uma citação de William Blake (a citação está na legenda da primeira foto).

Sem um baixista vai ser difícil fazer sucesso.
Jim não sabe tocar nada e é qualquer coisa menos um músico. Aliás, ele vive bêbado. Como vai conseguir cantar?
Mas, tudo bem. Vai ser divertido.
Moonlight Drive foi, em teoria, a primeira canção do The Doors. Mas não entrou no álbum.

COMPLEXO DE ÉDIPO

É inexplicável. Mas o The Doors está fazendo sucesso. Até pouco tempo atrás eles estavam tocando no The London Fog, só que agora foram para o melhor bar da região, o Whisky a Go Go.
Antes quem tocava lá era o Love. Agora é o The Doors.

O discurso de Jim é perturbador. Ele é diferenciado.
Seu carisma consegue atrair a atenção das massas e compensar sua falta de habilidade com a música. Os outros integrantes são máquinas de improvisar e tocam de maneira impecável.
Eles são o perfeito contraste de Jim: Ótimos músicos e extremamente profissionais.
“Jim Morrison foi o Tyler Durden dos anos 60. Ele sabia que o aperfeiçoamento é uma ilusão. Sua meta era a autodestruição completa, só assim teria liberdade para fazer qualquer coisa. Jim buscava o fundo do poço, e o The Doors era seu Clube da Luta.”
Durante os shows no Whisky a Go Go, Jim cria as suas letras. Muitas nascem no improviso, e são influenciadas pelos materiais que ele consome.
Poemas em prosa de Arthur Rimbaud.
O pessimismo de Friedrich Nietzsche.
A manipulação das massas por Gustave Le Bon.
O complexo edipiano de Sigmund Freud.

Jim não possui a palavra moderação em seu vocabulário. Tudo é consumido e transformado de maneira muito intensa.
Suas leituras refletem a sua poesia, a música, os palcos, e a vida. Talvez as ideias radicais de Nietzsche estejam contribuindo para sua vida absolutamente destrutiva. Talvez.

Sobre Nietzsche, não sei. Sobre Freud, eu sei. Por causa de Freud eles foram demitidos do Whisky a Go Go, o melhor bar da região. Deve ser o fim do The Doors.

Enquanto a banda tocava The End, Jim começou com seus improvisos. The End é a música que o The Doors sempre usa para encerrar seus shows.
Ou, pelo menos, era. Agora eles foram demitidos.

O começo é uma canção de despedida: “Esse é o fim/ Bela amiga/ Esse é o fim/ Minha única amiga, o fim”.
Uma simples canção de despedida. Provavelmente para uma garota. Ou talvez não. Algo mais complexo e profundo, como a despedida da infância.
Só que, enquanto Jim improvisava, no meio da canção, ele resolveu falar do Complexo de Édipo. E, ao fazer uma referência à obra de Sófocles, Édipo Rei (no qual o protagonista mata o seu pai e faz sexo com a sua mãe), a tragédia grega foi plantada: “Pai?/ Sim, filho?/ Eu quero te matar/ Mãe?/ Eu quero te f...”.

Ninguém entendeu nada. Muito menos o dono do Whisky a Go Go. Todos ficaram em estado de choque com a letra. Foram demitidos.
É o fim do The Doors.
Tudo bem. Foi bom enquanto durou.
Ao contrário de Moonlight Drive, The End entrou no álbum. E virou um hino.

ELEKTRA RECORDS

Não. Não foi o fim do The Doors.
Parece que 3 dias antes da demissão, eles haviam assinado com uma gravadora. Chamada Elektra Records.

O produtor assistiu um show deles no Whisky a Go Go e se encantou pela performance dos californianos.
O The Doors não acabou. Pelo contrário, vão gravar o primeiro disco.

Será que se Jim não estivesse com contrato assinado, ele teria causado a demissão do grupo no Whisky a Go Go? Não sei. Não sei se ele é um cara muito esperto, ou muito sortudo.
Só sei que ele é imprevisível.

Estamos em agosto de 1966. As gravações começaram.
O conjunto enfrenta alguns problemas. O primeiro é a falta de tempo em estúdio. Eles nunca pisaram em um antes, e agora que estão lá dentro, não sabem direito o que fazer. E o tempo reservado para eles gravarem é mínimo.
O segundo problema é Jim. Ele nunca aparece sóbrio para gravar.
Para Jim, não está tudo bem. Algo ainda falta.

O último problema é a solução. O The Doors não tem músicas suficientes para completar um álbum.
Então Jim sugeriu que a banda tentasse compor algo.
Robby Krieger aparece com uma melodia, uma primeira estrofe, e um refrão. É Light My Fire. Morrison deu seu toque e escreveu a segunda estrofe, bem mais sombria e fúnebre que a primeira.

Light My Fire vai se tornar o maior sucesso comercial do The Doors. O presidente da gravadora já sabe que isso vai acontecer. Não foi à toa que ele pediu uma versão mais encurtada e radiofônica.
E é essa versão que atingirá o primeiro lugar nas paradas, e vai alavancar o grupo para um patamar de estrelas do rock.
The Doors se apresenta com Light My Fire, pela primeira e última vez, no Ed Sullivan.

SEM HOLOFOTES

O sucesso estrondoso de Light My Fire mostrou a importância de todos os integrantes. The Doors é muito mais do que Jim Morrison e banda.

Por isso mesmo, Jim está puto.
Não está tudo bem para ele.

Ele não quer ser o centro das atenções. Todas as propostas de carreira solo são imediatamente recusadas. O vocalista sabe que todos são igualmente importantes, e quer que todos sejam tratados assim. Todos iguais.
Mas não são.

A contra gosto, saiu a capa do álbum. Jim odiou. Está puto. Está em primeiro plano. Ele quer todos na mesma posição.
A banda não liga muito para isso, mas ele sim.

Por que deveria ser o centro das atenções?
É injusto. Jim está puto.

VENHA PARA O OUTRO LADO

A primeira faixa do álbum é um resumo de tudo o que o The Doors pode significar para essa geração.
Break On Through (To the Other Side) é um convite. Um convite para que os ouvintes saiam da realidade a atravessem as portas da percepção.
Um convite para a liberdade, para a autodestruição.

“Você sabe que o dia destrói a noite/ A noite divide o dia/ Tentei fugir/ Tentei me esconder/ Atravesse para o outro lado/ Atravesse para o outro lado”.
O The Doors mostra para essa geração algo que até então não havia sido experimentado: O pessimismo.

O público sai da bolha colorida, com trilha sonora de The Beatles, e parte para uma experiência sombria, psicodélica, existencial... Sem ideais, sem paz, sem amor.
Afinal, estamos em guerra.
Não está tudo bem.
Atravesse para o outro lado.

O ANTI-HERÓI

O álbum foi lançado oficialmente em 4 de janeiro de 1967.
Cheio de defeitos.

A pressa na gravação, a inexperiência da banda, os excessos de Jim... Tudo isso contribui para que as músicas funcionem muito melhor individualmente, e ao vivo, do que em um conceito de álbum.

Twentieth Century Fox, I Looked at You, Take It as It Comes… Algumas músicas são pura encheção de linguiça e em nada se parecem com o espírito do The Doors.

Em compensação, The Crystal Ship, Alabama Song (Whisky Bar), End of the Night… Além das já citadas durante o texto, nos mostram que o The Doors é o anti-herói dos anos 60.
The Doors é o cérebro de Ray.
The Doors é a criatividade de Robby.
The Doors é a perícia de John.
The Doors é o fígado de Jim.

É o anti-movimento. A contracultura.
É o lado negro da força.
É o lado escuro da lua.

Não está tudo bem.

Before you slip into unconsciousness; I'd like to have another kiss. Another flashing chance at bliss; another kiss, another kiss.



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FICHA TÉCNICA:
Artista: The Doors
Ano: 1967
Álbum: The Doors
Gênero: Blues Rock / Rock Psicodélico
País: Estados Unidos
Integrantes: Jim Morrison (vocal), John Densmore (bateria), Ray Manzarek (teclado), Robby Krieger (guitarra).





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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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