Arnaldo Baptista - Loki? (1974): O agonizante diário de um lóki...


Perturbador, caótico, agonizante, paradoxalmente belo. Esse é Loki?, o disco de estreia da carreira solo do ex-Mutante Arnaldo Baptista. Um dos grandes clássicos do rock nacional, nascido nos conturbados (e por vezes não tão distantes) anos 70.

A LOUCURA ESTEVE PERTO

Loki?, se olhado de longe, é um álbum um tanto quanto simplista.
Para compreendê-lo, é necessário entender (se é que isso é possível) a situação do Arnaldo naquela época.

O cara tinha acabado de sair d’Os Mutantes e se separado da sua esposa Rita Lee. Vivia um momento de muitas dúvidas profissionais e amorosas.
A ditadura estava cada vez mais violenta.
Além disso, ele estava afundado no LSD.

Completamente na lama, o disco Loki? saiu com um desabafo, um diário de seus delírios e sentimentos.

UM DIÁRIO SEM BORRACHA

O instrumental é extremamente simples. Arnaldo revolucionou musicalmente e fez algo diferente de qualquer coisa já produzida até então. Tudo acontece ao redor do piano, e todas as músicas foram gravadas no primeiro take. Sem ensaios, sem repetições.

Reza a lenda que esse fato gerou diversos atritos com os músicos e a gravadora, que queriam refazer algumas coisas para dar uma melhorada no trabalho, corrigir erros e imperfeições.
Mas Arnaldo permaneceu irredutível. Loki? foi encarado por ele como um diário escrito sem borracha ou rascunhos.

Obviamente essa postura gera um efeito colateral. Nem tudo soa tão certo, e algumas coisas ficam demasiadamente improvisadas.
Entretanto, isso não é motivo para subestimar o poder de Loki?. A citação abaixo, ligeiramente adaptada e retirada de um ótimo texto do Carlos Viegas (clique aqui para ler), é irrefutável.
“Sem querer, Arnaldo compôs baladas suicidas muito antes do Joy Division e produziu um disco sem guitarras 30 anos antes do Keane se achar inovador por fazer exatamente a mesma coisa. Mesmo a um passo do manicômio, ele era capaz de transformar a sua loucura.”
Arnaldo gravou Loki? mais louco que o Batman de 1966.

SALADA DE SENTIMENTOS

As letras são o espelho da cabeça de Arnaldo Baptista.
A abertura, com Será que eu vou virar bolor?, é emblemática. Parece que o resto do álbum é feito sobre essa faixa. Ela mostra um resumo das preocupações de Arnaldo, com várias pequenas e sutis sacadas ao longo da letra, que vão mostrando o seu lamentável estado de espírito.

De cara ele já fala da dificuldade em lidar com seu passado, esquecer Rita Lee e Os Mutantes (“Venho me apegando ao passado/ E em ter você ao meu lado...”). Nela também fica claro o medo que ele tinha de ser esquecido (“Será que eu vou morrer de dor?/ Será que eu vou virar bolor?”).
Mas o principal detalhe fica por conta da curta frase “Eu vou voltar pra Cantareira...”. Era naquela região que Arnaldo tinha uma casa com Rita.

As referências à Rita Lee pipocam por todo o trabalho e evidenciam a dificuldade dele lidar com a separação. É difícil não imaginar que Te amo podes crer e Desculpe não tenham sido escritas para ela (“Não sou perfeito/ Nem mesmo você é/ Me abrace/ Diga-me o meu nome/ Diga-me que você me quer”).
E o fato de Rita ter participado da gravação de Loki? é mais um ponto que evidencia esse vínculo.

Mas Loki? não é só amor. É uma salada de sentimentos.
Por vezes, beira o nonsense. Algumas frases são jogadas e elas não ligam nada a lugar nenhum. Uma pessoa só é um exemplo de que a viagem pode passar da dose, e a loucura sobrepõe qualquer possibilidade de entendimento.
Navegar de novo é um desabafo pseudo-politizado, em que Arnaldo reclama da inflação e má distribuição de renda, de maneira quase infantil (fora as brisas sobre velocidade da luz, quando ele resolve falar de física no meio do surto).
É possível quebrar a velocidade da luz, pois ela é relativa. Arnaldo quebrou Einstein.

Tentativas de reagir e “ligar o foda-se” (Não estou nem aí), a busca de um novo amor, ou uma nova paixão (Vou me afundar na lingerie), a loucura e as drogas (Cê tá pensando que eu sou lóki?)... Loki? é um espelho de uma mente andando na linha fina da loucura e razão.

O SURTO

É uma obra de difícil digestão, apesar de sua simplicidade musical. A complexidade psicológica imposta pelo disco é certamente uma barreira. Quando ouvido fora do contexto soa cruelmente como uma viagem sem nexo. Hoje consagrado, Loki? não foi compreendido em seu tempo.

O disco foi um fracasso de vendas, mesmo carregando o famosíssimo nome de Arnaldo Baptista e participações de ex-Mutantes.
E as causas foram muitas.
Além de problemas na divulgação e uma sonoridade totalmente estranha para os anos 70, a capa horrível certamente funcionou como um repelente natural. O cara sem camisa, apoiado em uma cadeira, com o espaço sideral e parte das suas costas ao fundo... Nada muito convidativo.

O ostracismo de Loki? contribuiu para que Arnaldo se afundasse ainda mais, sendo internado um pouco mais adiante. A primeira, de muitas internações.

Cê tá pensando que eu sou lóki, bicho? Malandro velho não se mete no enguiço.



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FICHA TÉCNICA:
Artista: Arnaldo Baptista
Ano: 1974
Álbum: Loki?
Gênero: Piano Rock / Rock Psicodélico
País: Brasil
Integrantes: Arnaldo Baptista (vocal e piano), Dinho Leme (bateria), Liminha (baixo), Rita Lee (vocal).

MÚSICAS:
1 - Será que eu vou virar bolor?
2 - Uma pessoa só
3 - Não estou nem aí
4 - Vou me afundar na lingerie
5 - Honky Tonky (Patrulha do Espaço)
6 - Cê tá pensando que eu sou lóki?
7 - Desculpe
8 - Navegar de novo
9 - Te amo podes crer
10 - É fácil



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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