Amadeus Awad - Death Is Just a Feeling (2015): O que é morrer?


Ouvir um maestro e multi-instrumentista nascido no Líbano está entre aquelas coisas que só a internet pode propiciar. Falo de um cara chamado Amadeus Awad.
Foi por meio do intenso clipe de uma de suas músicas (Lonesome Clown), que eu fiquei interessado em conhecer mais sobre o cidadão. Dessa maneira cheguei ao seu mais recente álbum, Death Is Just a Feeling.

TIME DE GABARITO

Amadeus Awad escreveu e produziu todo o trabalho de Death Is Just a Feeling, convidando alguns músicos de renome para participar do projeto.
São eles: Elia Monsef, vocalista que já esteve em outros lançamentos do Amadeus; Anneke van Giersbergen, uma vocalista holandesa com passagem por bandas como Agua de Annique e The Gathering; Arjen Anthony Lucassen, mais um vocalista, que brilhou no Ayreon; Marco Minnemann, um baterista alemão que vem fazendo ótimo trabalho no californiano The Aristocrats; e por fim, Jimmy Keegan, atualmente nas baquetas do Spock's Beard.

Há também a presença de Nareg Nashanikian e Rafi Nashanikian, no violoncelo e clarinete respectivamente (aparecem apenas no fim do disco). Já as partes narradas ficam sob a responsabilidade de Dan Harper.

Isso já dá bastante gente para dividir a fatia do bolo. Amadeus não economizou nos convidados, e mostra a ambição do projeto dele.
Hora de dividir as moedas... São três para cada um.

TEMÁTICA JÁ BEM EXPLORADA

A descrição do álbum é dada pelo próprio Amadeus: “Ele (o álbum) é o resultado da minha experiência pessoal com a morte. Tanto a perda trágica de entes amados (pai, irmão e melhor amigo), como a minha própria tentativa de cometer suicídio”.

Essa frase já dá uma noção do que podemos esperar de Death Is Just a Feeling. Primeiro que se trata de um disco conceitual, segundo que ele não é recomendado para pessoas precisando ouvir algo mais alegre e mais empolgante.
“Se você, leitor, está se sentindo meio triste, meio deprimido... Pare agora. Ou fique longe de objetos cortantes. Esse não é o tipo de música recomendada para alegrar e motivar pessoas.”
O ponto é que todo esse drama pessoal na música não é muita novidade. Como exemplo de perda de entes queridos, nesse ano tivemos o Judicator, com seu disco At the Expense of Humanity. No qual o Judicator narrou um câncer que se espalha irreversivelmente no irmão do vocalista.
Já a questão do suicídio foi abordada pelo Sky Architect em A Dying Man’s Hymn, gravado em 2011.

Tudo bem que em Death Is Just a Feeling, o Amadeus conta sua própria história e busca o suicídio por meio da ingestão de pílulas, enquanto que o Sky Architect contou uma história aparentemente fictícia, sobre um garoto pulando do precipício.
O meio é diferente, mas o fim é o mesmo.

O AMOR É UM DIFERENCIAL

Apesar das comparações com trabalhos similares, eu diria que Amadeus consegue um grande diferencial e se destaca um pouco mais do que os outros.
O motivo para essa minha impressão é, em grande parte, devido a uma abordagem bem mais reflexiva sobre a morte e os sentimentos. O que é o amor? Por que amamos quem amamos? E qual a relação disso tudo com a morte?
Ao ouvir atentamente seu trabalho, o título dado ao álbum, “a morte é só um sentimento”, passa a fazer sentido.

A abertura do disco com a música Opia foi um bom acerto, pois ela tem basicamente um caráter introdutório.
Uma longa narrativa instrumental dita as questões sobre o amor, e apenas no último quarto surge a voz de Anneke, explicando o porquê de Death Is Just a Feeling ter sido escrito: “Você deve estar se perguntando por que escrevi essa canção/ Não é uma canção de ninar para os deprimidos/ É um suspiro sem fôlego do fundo de meu fraco pulmão/ Meus pesadelos silenciosos”.
Pesou hein?
A letra das músicas são um reflexo de seu estado emocional.

NÃO É MESMO UMA CANÇÃO DE NINAR

Apesar de um clima predominantemente lento, com uma atmosfera mais para o rock progressivo floydiano (salvo exceções em que a guitarra rasga uma metaleira prog), Amadeus Awad consegue sustentar um clima tenso e perturbador no ar.

Sleep Paralysis é o momento do suicídio (ou da tentativa). Ainda com Anneke no vocal, ela narra a ingestão das pílulas: “Já passou da meia-noite e as pílulas estão entrando”.
A terceira música é Monday Morning, que se resume a uma narrativa seguida por um longo trecho instrumental. Achei que ela deu uma quebrada desnecessária no ritmo, mas ao mesmo tempo entendo que ela estava ali justamente com esse objetivo, de fazer uma ponte entre duas fases distintas, a anterior ao suicídio, e a pós-suicídio.

Ponte atravessada, e nós chegamos na Tomorrow Lies. Elia Monsef assume o vocal e dita um toque mais triste e conformista aos nossos ouvidos, oposto a aquela sensação de desespero que Anneke transmitiu antes.

A MORTE É SÓ UM SENTIMENTO

“A morte é só um sentimento de que você não voltará mais/ É um coração inchado e uma cama vazia/ Um quarto cheio de gritos e choros que me deixam louco/ Se a morte é só um sentimento então certamente estou morto”.
Embaixo desses versos perturbadores na voz de Anneke, somados a uma atmosfera inicialmente sombria que evolui rumo ao caos total, Lonesome Clown é o auge do disco, e te transporta até as angústias mais profundas de Amadeus.
Vale a menção de que o violoncelo atua impecavelmente na introdução e ajuda na construção do ambiente.

Lonesome Clown causa um efeito interessante ao colocar uma parte instrumental suave e relativamente longa no meio da música. Pois ao mesmo tempo em que ela parece o momento de relaxar após tanto caos, no fundo você sabe que todo aquele peso pode voltar a qualquer momento. A questão não é se, e sim quando ele voltará.
E é exatamente após o “eu te imploro perdão” cantado por Anneke, que o suspense acaba e o mundo cai. Amadeus volta ao refrão com ainda mais raiva.

O disco termina com Temporary, um instrumental rico e bem encaixado não deixa esconder a voz suave de Arjen Lucassen, que carrega paz e uma mensagem de esperança. Foi um ótimo contraponto a toda carga emocional carregada ao longo da obra.
A morte é simplificada e vira apenas mais um sentimento qualquer.

TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

Death Is Just a Feeling é um disco relativamente curto, com cerca de 45 minutos. Ainda mais quando falamos de rock progressivo e conceito.
Não é exagero: Imaginar um álbum de rock progressivo conceitual com menos de uma hora é algo tão surreal quanto imaginar pôneis metaleiros comendo bacon.
Mas Amadeus mostra que tamanho não é documento, e bastaram seis músicas, em 45 minutos, para surpreender e convencer.

Certamente um trabalho que vale a pena ser contemplado. Por isso, minha última deixa será o clipe de Lonesome Clown... Clique aqui e curta o momento.

A room full of cries and screams that drive me mad; if dead is just a feeling then I’m surely dead.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Amadeus Awad
Ano: 2015
Álbum: Death Is Just a Feeling
Gênero: Rock Progressivo
País: Líbano
Integrantes: Amadeus Awad (teclado, guitarra, baixo), Anneke van Giersbergen (vocal), Arjen Anthony Lucassen (vocal), Dan Harper (narração), Elia Monsef (vocal), Nareg Nashanikian (violoncelo), Rafi Nashanikian (clarinete).

MÚSICAS:
1 - Opia
2 - Sleep Paralysis
3 - Monday Morning
4 - Tomorrow Lies
5 - Lonesome Clown
6 - Temporary



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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