Saracen - Redemption (2014): O primo esquecido da NWOBHM.


Uma coisa sempre me causou certo incômodo na cena metal: As letras das músicas.

Apesar de esse ser um dos meus gêneros favoritos, devo confessar que o conteúdo nem sempre é bem elaborado.
Calma. Não me esporre. Óbvio que existem exceções, né...

CONTEÚDO RESPEITÁVEL

O Saracen certamente é uma das bandas de metal que entram na categoria das exceções. Os ingleses conseguem fugir totalmente dos clichês básicos da cena.

Com letras bem inteligentes, eles retiram suas inspirações das mais diversas fontes. Entre elas, história e cinema.

Não falo isso só por causa desse álbum. No último lançamento do conjunto, Marilyn (2011), o Saracen apresentou um disco totalmente conceitual, sobre a vida de Marilyn Monroe, abordando minuciosamente a sua história.

Redemption não é conceitual. Mas isso não quer dizer que não seja tão interessante quanto. O principal compositor, Rob Bendelow, mandou muito bem nos temas abordados.
Jack Reacher: Personagem foi uma das inspirações de Redemption.

NÃO ESPERE UM CLÁSSICO NWOBHM

No final dos anos 70 começou o movimento da nova onda de metal britânica (“New Wave of British Heavy Metal”). Com um estilo único, o movimento se expandiu e muitas bandas atingiram grande sucesso. O Saracen fez parte dessa invasão britânica com seu lançamento, o renomado Heroes, Saints & Fools, de 1981.

O sucesso não durou muito. O próximo álbum não se destacou tanto (até porque o NWOBHM já tinha perdido grande parte da sua força), e a banda ficou com um hiato de 19 anos sem material inédito.

Esse retorno marcou uma diversidade muito maior da banda. Eles não se prenderam apenas ao metal, partindo para novos gêneros e sonoridades.

Sob essa ótica, Redemption é o álbum mais conservador dessa nova fase. Ele claramente revisita o passado da banda. Apesar de ainda ter muitas influências externas (hard rock e AOR), o heavy metal volta a ser um dos elementos centrais.

DA FRANÇA

“Eu já vi o lugar para aonde as águias voam/ Aonde as montanhas parecem tocar o céu”... Com essa frase, Redemption é iniciado ao ouvinte. Enquanto isso, ao fundo, ouvimos o teclado guiando um poderoso riff em conjunto com a guitarra.
Esse é o lugar para aonde as águias voam.

Essa primeira frase não é nada impressionante. Pelo contrário. Águias, montanhas, céu... Tudo o que eu disse sobre o Saracen fugir de clichês parece cair por terra, certo?
E se eu te falar que tem uma virgem negra na parada?

Pronto! Se antes era clichê metal, agora virou clichê black metal. Só falta aparecer o bode e algum sacrifício bizarro.

Mas a análise não é tão rasa assim. A música vai avançando e dando pistas de qual lugar é esse em que “muitos vão olhar, mas nunca entender”.

O Saracen está falando de uma comuna francesa, chamada Rocamadour. Trata-se de um local de peregrinação que foi o lar do eremita Zaqueu de Jericó.
Reza a lenda que esse eremita trouxe para Rocamadour a estátua da Virgem Negra. A partir daí criou-se um santuário em que são atribuídos muitos milagres.
“A música é uma bela aula sobre a região e o santuário. Ou você estava achando que, dessas bandas de metal britânicas, só o Iron Maiden é capaz de fazer grandes referências históricas?”
Ficou frustrado por não se tratar de um black metal truezão? Rocamadour não tem bode, mas tem cabra, serve? Lá é feito um queijo de cabra famosíssimo!

À ÍNDIA

“Muito tempo atrás/ Além das terras sagradas/ Eles forjavam seus aços/ Nenhum corsário conseguia entender”... Tá... Uma letra dessas parece indefensável. Isso aí é aquele típico power metal manjado que surge toda semana!!
Só que não.
Onde eles estarão agora? Perdidos e nunca encontrados.

Essa é a quinta faixa de Redemption, Swords of Damascus. Ela conta a história das lâminas de Damasco (forjadas na cidade de Damasco, capital da Síria).
As lâminas eram fabricadas utilizando um aço importado da Índia.

O método original para produzir essa liga metálica foi perdido com o tempo. Tentativas modernas de reproduzir o aço não foram bem sucedidas.
Muitos pilantras dizem por aí ter descoberto como forjar o aço de Damasco, mas isso não passa de balela.

As lendas contam que as espadas de Damasco eram tão poderosas, que se um fio de cabelo caísse sobre elas, ela o cortava. Uma pesquisa alemã publicada em 2006 revelou a presença de nano tubos de carbono na lâmina.
Além disso, o visual delas era incrível. Devido aos componentes usados para fazer a liga metálica, eram formandos vários mosaicos e contrastes de cores na superfície do material.

VOLTANDO A FALAR DE MÚSICA

Empolguei-me nas histórias. Desculpe leitor se te matei de tédio.

O álbum tem boas referências em quase todas as suas letras. De Jack Reacher (Reacher), até o gênesis (Redemption (On the 6th Day)), com o Saracen contando os passos de Deus ao longo dos sete famosos dias em que ele cria o mundo.

Musicalmente, os estilos variam muito (tradição desde o retorno da banda), tornando difícil a criação de um rótulo para o todo. Em alguns momentos temos o bom heavy metal (Rocamadour), AOR total (Geraldine), hard rock (Let Me See Your Hands)...

Em contrapartida à ousadia, o Saracen continua com o insuportável hábito de regravar suas próprias músicas. Isso acontece em Crusader e Ready to Fly, ambas do primeiro álbum, e que não tem nenhum motivo para reaparecerem agora.

You & I é uma baladinha bem insossa, apesar do belo vocal Karensa Kerr, que segura um pouco a onda. More Than Missing You é outra que não empolga e é dispensável.

Essas escorregadas não tiram os méritos desse trabalho, que se destaca principalmente pela inteligência das composições e pelos arranjos simples, sem grandes virtuoses, porém de musicalidade poderosa.
Olha a cara de preocupação deles ao saberem minha opinião.

FORA DO RADAR

O período de inatividade contribuiu para que o Saracen sumisse dos radares metaleiros. Hoje a banda é muito pouco conhecida por aí.
Eles são como aquele primo que se afasta da sua família e das suas origens. E que inevitavelmente acaba sendo esquecido aos poucos por todo mundo.

Uma pena. Esses caras mereciam mais reconhecimento, e aqui temos (mais uma) prova disso. Mesmo com alguns erros e pontos fracos, os ingleses tem muito mais qualidade do que alguns de seus primos que continuam embaixo dos holofotes.

They told us not to cry; as we sang a song of praise. A story to be told; before the end of days.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Saracen
Ano: 2014
Álbum: Redemption
Gênero: Hard Rock / Heavy Metal
País: Inglaterra
Integrantes: Paul Bradder (teclado), Paul Highfield (baixo), Rob Bendelow (guitarra), Simon Roberts (guitarra), Steve Bettney (vocal), Tris Alsbury (bateria).

MÚSICAS:
1 - Rocamadour
2 - Reacher
3 - Give Me a Sign
4 - Geraldine
5 - Swords of Damascus
6 - Road to Yesterday
7 - Crusader
8 - Catch the Wave
9 - More Than Missing You
10 - Redemption (On the 6th Day)
11 - You & I
12 - Let Me See Your Hands
13 - Ready to Fly



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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