Pain of Salvation - In the Passing Light of Day (2017): Probabilidades.


O Andar do Bêbado. Esse é o livro que está na minha cabeceira neste momento, restando poucas páginas para ser devolvido à estante.

Não é um livro sobre música, mas pode ter haver. É um livro de estatística, e sobre como o acaso pode afetar nossas vidas. Ou seja, pode me chamar de nerd.

DESAFIANDO OS NÚMEROS

O interessante desse livro é a visão que ele passa sobre os acontecimentos do cotidiano, e sobre como uma combinação absurda de coisas completamente improváveis, pode nos afetar tanto.

In the Passing Light of Day é um grande exemplo (e um lembrete) de como a vida está sujeita ao imprevisível.

Daniel Gildenlöw, o vocalista e fundador do Pain of Salvation, viveu um drama pessoal muito intenso em 2014.
Era um dia típico de janeiro, quando ele resolveu dar uma passada no hospital, por estar com uma dor absurdamente forte nas costas.

Convenhamos, dor nas costas é um problema bem comum e ninguém imaginaria que poderia ser algo grave. Só que não foi o caso. Daniel Gildenlöw entrou no hospital para sair quatro meses depois.
O músico contraiu uma fasciíte necrosante... Ou, em um linguajar mais adequado: Uma bactéria comedora de carne. Sim, o nome parece coisa de metaleiro truezão.
“A probabilidade de você pegar essa bactéria do capiroto é de três a cada milhão de habitantes, com uma mortalidade de 25%. Ou seja, a chance de você contrair isso (e sobreviver) é de 0,0002%.”
Já no primeiro dia de internação, Daniel foi operado. Tiveram que retirar uma quantidade razoável de pele e carne das costas dele, sendo possível ver sua espinha.
Spoiler: The Walking Dead é, na verdade, uma série sobre um surto de fasciíte necrosante.

Como ele mesmo disse, foi o dia mais intenso de sua vida e muitas coisas se passam na cabeça em situações como essa: Médicos com expressão assustada e sorrisos falsos, sair de casa sem sequer dar tchau para as crianças, a consumação da urgência do tempo...
Era uma situação em que não dava para rir ou reclamar, a dor era insuportável. Era tanta dor que não conseguia ter medo.

NÃO ERA PARA SER

Não era para ser um álbum conceitual, a banda não tinha essa pretensão. Mas o que rolou foi uma experiência tão exótica, que os suecos mudaram de ideia.

Um disco conceitual sobre uma bactéria que come carne? Isso não faria muito sentido, a não ser que estivéssemos falando de uma banda gore.
Só que um disco conceitual sobre o sentimento de estar em um hospital, e frente a frente com a possibilidade de mortalidade, é algo bastante sensato e honesto. E foi esse o caminho escolhido por Daniel.

O álbum começa e termina no mesmo ponto: O primeiro dia de internação. O restante das músicas viajam ao longo de suas memórias e sentimentos.

RETORNO ÀS RAÍZES

Uma das promessas do Pain of Salvation foi retornar à sonoridade consagrada no início da carreira da banda, um som mais voltado ao metal técnico e complexo.

Bem, promessa feita é promessa cumprida. O peso já fica evidente nos primeiros dez segundos de On a Tuesday, faixa de abertura.
É uma canção bastante impactante, com uma construção cheia de contrastes e quebras. Pessoalmente, é minha favorita do álbum.

A letra expõe todos os sentimentos do protagonista, partindo da internação e da chance de ele não ver o dia seguinte (“Se eu viver para ver o amanhã/ Será minha terça-feira número 2119”).
Falando da sua incrível falta de sorte, até questões existenciais como promessas e mudanças, é uma letra que certamente merecerá uma postagem à parte.
Você mudaria após uma experiência de quase morte?

OUTRO METAL

A construção musical de In the Passing Light of Day é relativamente complexa, podendo ser considerado um disco de difícil digestão.

Ele foge da estrutura mais tradicional que estamos acostumados a ouvir no metal progressivo. É um álbum que usa e abusa de elementos mais modernos (e que por muitas vezes são banalizados).

Conversando com um amigo de longa data (autor do Blog do Gusta), ele me convenceu de que esse disco é fortemente construído por influências do djent.
Não só por alguns elementos característicos, como a afinação bem grave, uso de palm-mute, distorção pesada, etc, como pela presença do produtor Daniel Bergstrand – que deve ter dado uma boa pitada de seu gosto pessoal.
Afinal, Bergstrand foi o responsável pela produção de algumas bandas pioneiras do djent, como Meshuggah.

Admito: Eu prefiro uma sonoridade mais clássica. Isso é uma questão de gosto pessoal, claro. E por isso o Pain of Salvation me surpreendeu e quebrou o provável, pois mesmo com essa sonoridade mais distinta, acabei gostando muito do resultado final.

PONTO FORA DA CURVA

Um dos jargões da probabilidade é chamar algo que foge do normal de ponto fora da curva. É aquele típico resultado bizarro que não pode ser explicado por nenhuma força que não seja mística.

O ponto fora da curva de In the Passing Light of Day é a música Meaningless. Não faz muito sentido ela aparecer nesse álbum.
É uma canção boa, muito boa. Quando a ouvi pela primeira vez fiquei admirado com a combinação vocal do grave de Daniel e o agudo de Ragnar.
Só que, elogios à parte, essa é uma música fora de contexto. Ela não foi escrita para se encaixar no conceito e sequer é uma canção inédita, é um cover. Meaningless se chama originalmente Rockers Don't Bathe e foi escrita pelo Sign (antiga banda do Ragnar), lançada em 2012 no compacto Out From the Dirt.

Ah, mas ia deixar uma canção boa como essa fora do álbum? Não. Ela poderia ter entrado sem problemas. Funcionaria bem como uma música bônus, e não como a terceira faixa, perdida no meio da história.

QUEBRANDO A BANCA

É um álbum inesperado e surpreendente de várias maneiras. É forte, diversificado e, mesmo com a longa duração (poderia ter ficado um pouco menor) não soa cansativo.
Pelo menos quatro músicas são excepcionais: A já comentada On a Tuesday, Silent Gold e seu ar mais íntimo, a contestadora Reasons, e a agonizante If This Is the End, representando o exato momento da cirurgia (“Tem alguma coisa cortando meus ossos?”).

Talvez nem o mais otimista dos fãs esperasse que o retorno à sonoridade raiz fosse tão triunfal. O Pain of Salvation foi contra todas as probabilidades e quebrou a banca.

Bancas existem para serem quebradas. É a magia da estatística.

Just peel off this thin skin of humanity. Sometimes I feel the beast is the best of me.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Pain of Salvation
Ano: 2017
Álbum: In the Passing Light of Day
Gênero: Metal Alternativo / Metal Progressivo
País: Suécia
Integrantes: Daniel Gildenlöw (vocal e guitarra), Daniel Karlsson (teclado), Gustaf Hielm (baixo), Léo Margarit (bateria), Ragnar Zolberg (guitarra).

MÚSICAS:
1 - On a Tuesday
2 - Tongue of God
3 - Meaningless
4 - Silent Gold
5 - Full Throttle Tribe
6 - Reasons
7 - Angels of Broken Things
8 - The Taming of a Beast
9 - If This Is the End
10 - The Passing Light of Day



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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

1 comentários :

  1. Achei interessante que em várias entrevistas o Daniel menciona sobre "retornar ao som pesado de Remedy Lane", mas se você ouvir o Remedy Lane com atenção, vai perceber que In the Passing Light of Day é muito mais pesado e bem menos progressivo do que o Remedy Lane era. Enquanto o PoS pré-BE tinha um som de metal progressivo bem característico dos anos 90, tão intenso, complexo e interessante, como uma das bandas que mais deu suporte a eles, o Dream Theater, o PoS pós-BE inicia-se numa fase menos conceitual (apesar do Scarsick ser o Perfect Element part II, eu mesmo não consegui enxergar isso ainda), mas definitivamente rumando a um som mais moderno, e quando digo moderno, você bem disse, por vezes banalizado, como é o caso do Djent. Eu gosto de Djent, mas isso é verdade, como todo bom estilo em ascensão, aparece um monte de gente querendo imitar os elementos básicos. Com o Bergstrand na dianteira, é mais do que óbvio que o Djent estaria presente, mas no toque pessoal da banda. O som de In the Passing Light of Day não pode ser comparado ao Meshuggah, mas a estrutura do som sim. Quem não gosta de Djent vai dizer que não, mas o Djent é um estilo que está presente agora no som das bandas mais famosas, que seja discretamente ou descaradamente. Quanto a Meaningless, depois de prestar atenção mais ao álbum, é uma ótima música, a minha favorita pra cantar no trânsito já, porém ela é um ponto fora da curva mesmo. Ela não é contextualizada como Routine do H.C.E. do SW foi, e isso me incomodou também no "overall" da história que o disco busca contar. De qualquer forma, sonoramente eu não achei que ela quebra o disco, é só a letra (e o clipe) que me incomodou mesmo. Thanks for the quote. Bela resenha!

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