Deep Purple - Infinite (2017): Tudo passa.


Meia década em atividade... Você tem noção de quanto tempo é isso?
É mais do que a expectativa de vida na Somália, se você for um homem. É mais do que o tempo necessário para se aposentar, de acordo com a reforma da previdência. É mais tempo do que o necessário para decompor nylon.

O TEMPO NÃO É TUDO

Essa marca atingida pelo Deep Purple, além de impressionante, nos mostra uma coisa: O tempo pode não ser tudo, mas cobra seu preço.
Por isso precisamos ser razoáveis ao ouvir o som dos caras. Não dá para esperar uma nova Child in Time ou uma Highway Star, a expectativa é de um trabalho mais contido e sóbrio, natural que seja assim.

Gillan já não tem a voz de outros tempos. E Ian Paice, único membro presente em todas as formações possíveis e imagináveis, teve uma preocupante isquemia no final de 2016, que apesar de não ter acarretado em lesões permanentes, afetou um pouco o seu lado direito (ainda em recuperação).

O tempo é caro. Passa para todos. Não só para a banda, mas para o público e para o corpo técnico também. Vou falar sobre os dois, só que antes, da parte técnica...
Registro do início da banda, em 2 a.C.

BOB, O PRODUTOR

Bob Ezrin. Esse é o cara. Ou costumava ser.
O produtor ganhou um status de lenda inquestionável. E não é para menos. No currículo do cara estão trabalhos memoráveis.
Para ser breve, vou citar apenas alguns: Billion Dollar Babies (Alice Cooper, 1973), Destroyer (Kiss, 1976), The Wall (Pink Floyd, 1979)...

Respeitável, não?
Aparentemente o Deep Purple fez a melhor escolha possível ao selecioná-lo novamente para a produção.

Vou levantar um ponto polêmico aqui.
Pegue os trabalhos dele nos últimos 10 anos. Qual ganhou mínima relevância?

Os tempos são outros e vamos ser bem honestos, idolatria e respeito à parte, Bob é um ex-produtor em atividade. Está na hora de começarmos a questionar seus resultados.
A produção de Infinite é absurdamente porca. O álbum é mais comprimido do que o limite do tolerável. Você ouve clippings e a bateria desaparece em meio aos instrumentos. Não tem punch e força. Isso é inadmissível em uma banda de hard rock.

Loudness War, sua vaca.
“Faz sentido comprimir um disco do Justin Bieber. Faz sentido comprimir um disco do U2. Talvez até do Metallica faça algum sentido. Os ouvintes casuais não ligarão muito para isso. Mas, comprimir um disco do Deep Purple? É uma idiotice sem tamanho.”
Bob Ezrin aumentando todos os volumes possíveis, só para te ferrar.

O PÚBLICO


Falei da banda e da produção. Agora o público. Esse também envelheceu. O adolescente que nos anos 70 cantava “Ninguém vai pegar meu carro/ Eu vou quebrar a velocidade do som” amadureceu.
E hoje já não faz muito mais sentido letras como “Eu implorei que a amante não fosse embora/ Mas ela foi e quebrou meu coração”.

O Purple nunca prezou por grandes letras, é fato, mas algumas ficaram exageradamente fracas.

“Três bastardos cegos parados em um banco/ Um disse para o outro, ei, quem é seu amigo?/ Foi assim que tudo começou novamente”. Esse é um pedaço de Get Me Outta Here. Se conseguir passar pela bateria clippada, encontrará esse conteúdo. Tire suas conclusões.

NÃO É TÃO RUIM ASSIM

Estou xingando todo mundo no Twitter por causa desse álbum, não porque é tão ruim assim. É ok. Só que estamos falando de Deep Purple, e não dá para se conformar com algo ok vindo deles.
Eles podem muito mais do que um cover barato de Roadhouse Blues.

Don Airey é o maior destaque de todo o álbum. O teclado é muito bem trabalhado em todas as faixas e é quase um protagonista, papel que Don não havia assumido (intencionalmente ou não) após a saída de Jon Lord.

The Surprising é a faixa mais honesta do álbum. O Deep Purple não tenta se provar tão jovial e Gillan canta em um timbre mais confortável, com Steve Morse aparecendo muito bem com suas pontes na guitarra.
Aliás, esse é o único momento que Steve aparece, porque no resto de Infinite ele soa como um guitarrista bem burocrático... Desse jeito é difícil não ter saudades de Blackmore.

É O FIM?

Muito provavelmente esse seja o último disco de estúdio dos ingleses. É o que sinalizam suas entrevistas, e postura.
É um final grandioso? Sim. Pode não ser grandioso pelo presente, mas o legado deixado pelo Deep Purple é inquestionável, e Infinite é apenas um pequeno capítulo de uma longa história.

It wasn't quite the curse of Tutankhamen; or the kiss of death from Judas in the night.



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FICHA TÉCNICA:
Artista: Deep Purple
Ano: 2017
Álbum: Infinite
Gênero: Hard Rock
País: Inglaterra
Integrantes: Don Airey (teclado), Ian Gillan (vocal), Ian Paice (bateria), Roger Glover (baixo), Steve Morse (guitarra).





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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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