Homínido - Alados (2016): Voar, voar, subir, subir...


Eu tenho uma queda extra por álbuns conceituais, e muito provavelmente os leitores mais Xeroque Rolmes já se deram conta disso.

Não fiz o levantamento, e nem vou fazer porque estou com preguiça, mas de todos os discos que já resenhei, certamente há uma proporção muito alta desses trabalhos tão peculiares e difíceis.

O PODER DA IDEIA

O conceitual é mais difícil do que o álbum padrão, indubitavelmente. E admiro muito as bandas que resolvem encarar esse desafio.

A maior dificuldade é, se o conceito não partir de uma boa ideia, simplesmente não há salvação. O álbum todo será no máximo medíocre.
Só que o contrário não é garantia de êxito: Não basta partir de uma boa ideia. Existem muito mais variáveis envolvidas.
“A ideia nascer boa não significa sucesso, apesar de ser uma condição determinante para ele. Os executivos da Nokia ainda devem se torturar pelo fracasso do N-Gage... A ideia era boa, só que algo deu ruim do meio do caminho.”
Digo todo esse papo sobre ideias, porque foi justamente a proposta do Homínido que muito me agradou e despertou meu interesse em ouvi-los.
Alados é um álbum sobre as aves chilenas (terra natal do grupo), e sobre como a personalidade dessas aves pode se relacionar com a personalidade dos seres humanos.

Ponto para o ineditismo. Eu nunca vi nada parecido.
Reação do casal Obama, ao saber do que se trata o tema de Alados.

NOVAS CARAS, NOVO SOM, VELHOS...

Com uma formação modificada em relação ao primeiro trabalho (Estirpe Lítica, 2014), os chilenos apresentam atualizações em sua sonoridade.

A voz potente e marcante de Eliana Valenzuela dá lugar ao vocal de Javier Briceño, muito mais intimista e discreto do que sua antecessora. Nas quatro cordas também temos a saída de Francisco Martín, que é substituído por Natán Ide.

Essa dança das cadeiras teve como óbvia consequência uma nova cara no estilo do Homínido, principalmente devido ao vocal totalmente diferente.
O conjunto mantém o pé no fusion, só que transmite uma tocada mais suave, deixando para distorcer tudo em momentos mais esporádicos.

Essa suavidade também é necessária para acompanhar o tema do álbum. Seria no mínimo bizarro falar sobre pássaros com um thrash metal comendo solto.

Novas caras, novo som, velhos erros. Estirpe Lítica me incomodava em certos pontos por apresentar problemas na sobreposição dos instrumentos. Havia momentos em que tudo rolava meio que ao mesmo tempo, mas sem mostrar a unicidade tão importante na melodia. Aqui acontece a mesma coisa.
Pablo Cárcamo é guitarrista, tecladista, e responsável por esse belo encarte!

O FUSION É O CAMINHO

A habilidade dos músicos é um ponto forte, há uma mistura interessante de instrumentos e boa diferenciação entre as músicas. Só que erros básicos (porém comuns) no processo de gravação comprometem o resultado.

Por exemplo, a música Queltehue (o famoso quero-quero aqui no Brasil) tem um trecho bem pesado próximo aos três minutos, que depois é aliviado para a entrada do vocal. Só que os volumes de todos os instrumentos são sempre muito próximos, e isso anula o efeito pico/vale que deveria rolar nessas quebras.
Ainda assim, essa é uma das minhas músicas favoritas, lembrando o Seven Impale e sua boa bagunça de City of the Sun (2014).

Na mesma pegada jazzística fusion, Chercan é outro ponto interessante. Definitivamente, é nessa sonoridade que o Homínido trabalha bem.

Entretanto, o álbum não mantém o bom nível citado acima. Situações pontuais, como o lado mais metal de Vari (uma ave predadora dos céus chilenos) e Traro (o nosso temido carcará), possuem boas pontes e passagens. Isso é pouco. O todo falha ao se unir.

Já quando eles tentam partir para algo com mais cara de baladinha romântica, o leite azeda de vez. Em Fio Fio isso acontece, e a faixa vira um brega sem sal e sem tempero.

ENGAIOLADO

Criei um próprio hype dentro da minha cabeça, tamanha a empolgação com o lance dos pássaros e suas personalidades. E meu hype não aguentou até o final. Foi passageiro como qualquer outro.
Uma experiência frustrante, como a de ver um curió na gaiola.

O álbum oferece alguns pontos positivos, principalmente nas passagens instrumentais e sonoridades diferentes.
Só que a duração excessiva das músicas, somado aos problemas de volume e sobreposição dos instrumentos deixam a audição um pouco muito cansativa.

Rey de corona negra; quizás verás quién no esperas. Llega con sed de piel; sorprende y va sobre él.



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FICHA TÉCNICA:
Artista: Homínido
Ano: 2016
Álbum: Alados
Gênero: Rock Progressivo
País: Chile
Integrantes: Benjamín Ruz (violino), Cristopher Hernández (trompete), Javier Briceño (vocal), Natán Ide (“touch guitar”), Pablo Cárcamo (teclado e guitarra), Rodrigo González Mera (bateria).





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Sobre o Rock em Balboa

Depois de anos de estudo e dedicação à engenharia, percebi que era tudo um grande pé no saco. Joguei as coisas pro ar e fui para a ilha de Balboa (pode procurar no Google, ela existe!). Agora fico deitado na rede e ouço rock o dia todo.

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